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Reminiscências...
Parabéns, Rachel
Vinte e quatro anos atrás, a essa hora, eu só tinha uma filha com poucas horas de vida extra-uterina (e não as três "grandonas" que tenho hoje).
Lembro do dia, ou melhor, da véspera, com mais detalhes do que lembro da última quarta-feira.
Era um sábado que tinha começado às seis horas da manhã. Há meses estávamos pintando o apartamento oferecido pela minha avó, recém-desocupado pelo inquilino anterior. Encontramos paredes verde-oliva e cinza-chumbo – cortesia do vizinho CPOR. Pouco tempo antes, uma enxurrada havia derrubado o muro do terreno fronteiriço do quartel e inundado o apartamento. Eles se ofereceram "gentilmente" para consertar o estrago – e pintaram tudo com cores do exército.
Não foi fácil deixar as paredes brancas novamente. E pintar um imóvel todo – paredes, teto, rodapés, portas, janelas, venezianas, armários – era mais difícil do que pensávamos. Por isso o trabalho demorou tanto; por isso, naquele sábado, planejamos dar um fim naquilo tudo. Vários amigos apareceram para ajudar; pena que o pai da criança teve de dar plantão no serviço – a falecida Caderneta de Poupança Delfim, que teve não sei que atividade naquele fim-de-semana.
No fim do dia, a pintura não estava acabada, mas eu estava. De volta à casa da minha mãe, lembro de pensar: "Se o nenê quiser nascer hoje, vai ter de fazer força sozinho". Mas o pai chegou do trabalho com fome, eu também queria aproveitar uma de nossas últimas noites "a sós" e saímos para comer uma pizza.
Pedimos o carro da minha mãe emprestado – ela nunca regulou. Só não deu certo porque o velho Alfa Romeo não pegou. A pizzaria ficava a uns 40 minutos a pé; era uma noite de verão tão agradável que fomos andando.
No meio do caminho, as contrações, familiares desde os 7 meses (aprendi no cursinho de grávidas que é normal; na hora certa elas ficam regulares, ritmadas), vieram fortes e seguidas. Continuamos andando. Já na pizzaria, achei que estava doendo muuuuito, muito. Será a bendita hora?
Se não fosse, a maternidade que mandasse de volta. Resolvemos ir até lá. Pedimos para embrulhar a pizza para viagem e ligamos, do balcão do restaurante, para meu avô – o carro da minha mãe estava quebrado, lembram?
Vou cortar um pedaço da história para ir mais rápido. "Mais rápido" era como eu queria que meu avô andasse na 23 de maio vazia àquela hora, em seu espalhafatoso Maverick amarelo, mas não quis deixá-lo nervoso. Íamos no banco de trás, eu suportando a dor, meu namorado agüentando a impaciência.
Na velha Santa Joana, antes de ser chique como é hoje, tomei uma canseira. As enfermeiras quase zombavam de mim - "Primeiro filho? Ih, demora... Vai nascer amanhã de manhã". Fiquei na fila das grávidas, calmíssima, doloridíssima.
Quando meu médico chegou, virou cena de comédia. Dilatação enorme, providências urgentes, corrida de maca no corredor. A anestesia foi a ráqui porque não ia dar tempo de esperar a peridural fazer efeito. Em instantes, a "fêmea" estava nascida – foi como o médico anunciou o sexo, que eu nunca quis saber antes da hora.
Uma tranqüilidade que eu não imaginava – na sala de parto, eu, o pai, o médico e uma enfermeira. Silencioso, vazio. Não era Leboyer nem nada, mas foi bom assim. Rachel não chorou – saiu, abriu os olhos, olhou (mexeu os olhos) para um lado e para outro. Sobrenatural. Foi chorar lá adiante. (E, como disse ela ontem, pelo resto da vida. Se derrete até com comercial de margarina).
Se Rachel tivesse tido filho com a mesma idade que eu, a esta altura eu teria um neto de 8 anos. Adoraria, mas minhas meninas têm muito juízo – e cresceram em uma época em que já se falava de métodos anticoncepcionais e anti-DST com muito mais naturalidade. Mas um dia hei de ser avó, e espero que elas sejam tão felizes com seus filhos como eu sou com as minhas.
Escrito por Soninha às 11h08
Essas músicas incríveis e suas lembranças maravilhosas (1)
Músicas são legais porque são e porque lembram tempos, pessoas, lugares. Às vezes até uma música chata fica legal por causa da lembrança. E o contrário
Hoje pensei em algumas conexões músico-temporais:
Buffalo Soldier, Bob Marley
Quando o U2 veio para o Brasil pela primeira vez, a MTV transmitiu o segundo show ao vivo. Eu fiquei no gramado desde o começo da transmissão, tipo duas da tarde. Ou menos – teria sido meio-dia? Sei que estava um calor dos diabos, e quando caiu a noite foi uma delícia. Um pouco antes de começar o show deles, o sistema de som do estádio tocou músicas de outros artistas, e “Buffalo Soldier” foi uma das últimas. (Na minha lembrança, foi exatamente a última antes do U2 entrar no palco, mas temo estar exagerando). O estádio lotado embarcou totalmente no clima, curtindo o Iô-iô-iô balançando o corpo, braços e isqueiros. A arquibancada toda ondulava no ritmo do reggae... Foi demais. Por isso, Buffalo Soldier me lembra noite quente, estádio de futebol e U2...
Message in a Bottle, The Police
Como já contei em um post velho – um dos dez primeiros deste blog, acredito – foi ouvindo Police em um ônibus (Lauzane – Santa Cecília) sobre a Ponte da Casa Verde que eu descobri que o remédio anti-depressivo estava fazendo efeito. Eu me senti bem, fiquei feliz de ouvir uma música que eu gostava, e fazia meses que eu não tinha a sensação de gostar de qualquer coisa... A música falava em mandar um S.O.S. para o mundo, e eu ali passando por cima do rio poluído e achando tudo lindo. Só por dês-deprimir e voltar a “viver”.
Revolution, Tracy Chapman
Passei um mês ou mais de férias em Peruíbe, na casa da minha avó, ouvindo o disco inteiro da Tracy Chapman um milhão de vezes em uma fita cassete. Se toca qualquer uma das faixas, lembro da mesa de fórmica, azulejos até a metade da parede, fogão velho, geladeira colorida e também muito, muito velha. O puxador dava choque e tinha um guardanapo de pano enrolado para evitar.
(cont. abaixo)
Escrito por Soninha às 15h56
...Lembranças maravilhosas (2)
(cont. do post acima)
Cálice, Chico Buarque
Meu segundo aparelho de som, depois de um radinho de pilha com fone de ouvido que meu pai trouxe do Paraguai e eu achei o máximo, foi um rádio gravador que tinha, glória suprema, FM! Eu passava tardes gravando músicas do rádio, fazendo fitas que misturavam as coisas mais absurdas, como B-52 e Chico Buarque, Queen e Elba Ramalho, Kim Carnes e Electric Light Orchestra, KC & The Sunshine Band e Supertramp, Kate Bush e Amelinha. Tocava uma música que eu gostava, rec-play e acabou. A fita ficava sempre no ponto – era uma BASF laranja, ou, quando fazia uma extravagância, uma não-sei-que-marca modelo cristal que era o fino. E até hoje eu escuto “Cálice” e lembro daquele rádio, da cozinha da casa da vila (era onde ele ficava “estacionado”) e do armário de fórmica e inox “Fiel”.
Desperado, Carpenters
Também lembro dessa casa da vila onde eu morava, em Santana. Conselheiro Pedro Luiz, 293 casa 25. Minha mãe tinha a maior implicância com esse negócio de ter de escrever “casa 25”, não sei por que. Achava feio. Eu só tinha preguiça... Já não bastava a rua ter esse nome enorme? Até hoje, quando algum vereador propõe um nome de rua muito comprido, eu lembro do quanto queria que o nome da minha fosse mais curto.
O LP dos Carpenters foi um dos primeiros ou o primeiro disco “de verdade” da minha vida, sem ser de historinha, e poder botar pra tocar sozinha no toca-discos do meu pai era uma glória, uma prova de que eu estava crescendo – além do fato de ter os discos “de adulto” (os outros eram um álbum duplo ao vivo do Queen e uma coletânea do Elton John). Essa música é a que traz a lembrança mais específica, em plano fechadíssimo: quando ouço Desperado lembro do selo do LP rodando. Acho que é porque, quando eu era pequena, eu gostava mesmo da versão dos Carpenters para Mr Postman, dos Beatles, que vinha logo depois. Eu pulava as duas primeiras faixas e acho que só escutava “Desperado” para aumentar a expectativa por “Mr Postman”, e ficava olhando o selo girar até que ela chegasse... Hoje em dia, a-do-ro Desperado. “It’s been raining/ but there’s a rainbow above you/ you better let somebody love you...”. O tom grave da Karen Carpenter é perfeito pra cantar junto!
Spread Your Wings, Queen
A mesma sala, o mesmo aparelho de som, mas aí a lembrança é de deitar no sofá no escuro, aproveitando a ausência de todos os meus (dois) irmãos... Sofá de couro, mesinha de centro com tampo de mármore, carpete verde. Verde!
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PS: Imitando um procedimento do Nassif, cujo blog é muito bom, reproduzo aqui um comentário e a minha resposta, pra corrigir uma bobagem acima:
(Ele): Acho que estou envelhecendo e ficando mais "chato". A música Mr Postman, além dos Beatles, teve várias gravações incluindo os Carpenters. É de autoria de F.C.Gorman - B.Holland. Não sei quem gravou o original, mas deve ser nos anos sessenta, Um abração, Luiz Américo.
(Eu): Chato nada, Luiz Américo, certíssimo. Eu tenho mania de me referir a músicas "dos Beatles" quando a primeira gravação que ouvi foi a deles. Já fiz isso com "Twist and Shout", por exemplo. É um crime... Obrigada por chamar a atenção :o)
(cont. abaixo)
Escrito por Soninha às 15h55
...Lembranças maravilhosas (3)
(cont. do post acima)
Every little thing she does is magic, The Police
Essa outra música do Police me lembra o verão de 81. Mais precisamente, as alamedas da sede urbana do SPAC, o super exclusivo e aristocrático São Paulo Athletic Club, uma ilha de silêncio a um quarteirão da barulhenta Consolação, no centro da cidade.
Como eu fui parar lá é uma história que vale um post inteiro... No começo dos anos 80, participei de vários musicais de fim de ano da Cultura Inglesa. Era uma farra – dezenas de atores, às vezes mais de cem, ensaiando todo fim-de-semana por quatro ou cinco meses. Alguns eram muito bons; outros, nem um pouco. Alguns levavam muito a sério, outros só se divertiam. Eu ficava no meio-termo – nunca cantei muito bem, mas fazia minha parte direitinho, com dedicação – e me divertia muito.
Além de algumas apresentações em teatros da cidade – um ano foi na FAAP; no outro, no Teatro São Pedro; no outro, na Casa de Cultura Mazzaropi – nós fazíamos duas ou três sessões no auditório do SPAC, para o público “inglês”. Em 81 apresentamos Dracula Spectacula, um musical do qual eu nunca mais ouvi falar. Nessa época eu ouvia direto no rádio, e amava, essa música do Police. Via o clipe no TV2 Pop Show, da Cultura (ou já chamava Som Pop?) e adorava os três branquelos aloprados.
Não sei se a ouvi no clube, na tarde ensolarada que passamos lá para fazer um ensaio de “reconhecimento do palco”. Sei que lembro de estar lá com a turma – as meninas do elenco rindo, brincando, tirando fotos com a minha Kodak Instamatic 126; os meninos zoando com as meninas, entre eles aquele que viria a ser meu primeiro marido e eu na época nem imaginava.
Detalhe: depois da última apresentação, o elenco caiu todinho na esplêndida piscina do clube, com roupa e maquiagem. Não adiantava nada a cordinha para isolar a piscina do auditório, ou o fato de as luzes estarem todas apagadas e ninguém poder tomar banho e se secar depois. Era uma “tradição”, inaugurada no ano anterior. E encerrada naquele ano mesmo – não sei por que, nunca mais o musical da Cultura foi apresentado no SPAC.
(ainda tem um pedacinho no post abaixo)
Escrito por Soninha às 15h54
...Lembranças maravilhosas (4)
O título desses posts me veio à cabeça por causa de um filme, “Esses homens maravilhosos e suas incríveis máquinas voadoras”. Quer dizer, é assim que me lembro do título, mas pode ser que não fosse exatamente esse. Era uma comédia “selvagem” (é que os ingleses usam “wild”, que em português não dá a mesma idéia), amalucada, muito engraçada. Uma espécie de Corrida Maluca (o desenho animado que tinha a Quadrilha de Morte, Dick Vigarista, Penélope Charmosa...) com atores de verdade.
E, não sei por que, lembrando desse filme eu me lembrei de outra comédia que eu vi algumas vezes e adorava, “Assassinato por Morte”. Reunia detetives de várias histórias diferentes – tipo Charlie Chan, Columbo e Hercule Poirot. O elenco, se não me engano, tinha o David Niven, o que dava um toque de classe sensacional em uma gozação como aquela. E esse filme me lembra o quartinho dos fundos da casa da minha avó, na “rua do CPOR”, em Santana (quantos rapazes não conheceram a Chemin Del Prat por esse nome?), onde eu o assisti pela última vez, décadas atrás. Acho que foi em um domingo à noite, e enquanto a família assistia o Fantástico na TV em cores da sala (“Olhe bem, preste atenção/ Nada na mão, nesta também/ Nós temos mágicas para fazer....”), eu via o filme na TV preto-e-branco minúscula da empregada.
A TV da sala da minha avó me lembra outra coisa: CHIPS, programa sagrado do domingo à noite (“Hey, Ponchie...”), que a gente via antes de ir embora pra casa, depois de ter passado o dia todo lá. Mas chega de reminiscências por hoje.
Escrito por Soninha às 15h53
Almaço, decalque e canetinha
“Pai, não é só aqui em casa que está com problema, meus colegas também ficaram sem internet e não puderam fazer o trabalho da escola”.
“Não puderam fazer o trabalho?”, disse o pai, bronqueando meio de brincadeira. No meu tempo, a gente pesquisava na enciclopédia, ia até a papelaria, comprava um decalque e ilustrava o trabalho no papel almaço!”.
Pois é, no nosso tempo copiava-se muito trabalho de enciclopédia... Quem podia imaginar que um dia a expressão “copy/paste” seria de uso corrente por crianças de 8 ou 9 anos? Que computador seria objeto portátil e acessível por uns pirralhos que fazem suas próprias comunidades no Orkut? Naquela época, copiava-se à mão, com atenção e critério ou sem. Quando a cópia vinha em letra bonita demais, a professora estrilava: “Não tem mão-de-gato aí não?”.
Eu lembro também de trabalhos apresentados na forma de lindos cartazes em cartolina, às vezes feitos assumidamente a quatro mãos: “Minha mãe me ajudou”. A minha também se prontificava a ajudar aqui e ali, mas a gente acabava discutindo tanto – eu era crica, não gostava muito de ajuda -- que no meio do trabalho ela perdia a paciência: “Então faz sozinha!”. Fazia sozinha, com muita atenção, muita criatividade e muito pouco jeito com as mãos. Meus trabalhos às vezes eram do tipo que “parece que a aluna almoçou e jantou em cima”, como dizia a incrivelmente elétrica D. Terezinha, ou D. Zinha, a professora de Artes. Com a mão suja de cola, eu acaba sujando o papel; desajeitada, entortava as beiradas e passava a mão suada pelas letras, borrando metade. (Vai tentar apagar o borrão – piora muito).
Cartolina, decalques, papel almaço... Das enciclopédias não tenho saudade, sou devota do santo Google, mas de fazer sujeira com cola e canetinha (como a gente gostava de usar hidrocor Silvapen!) eu tenho muita.
***
Fui conferir se Silvapen era com "i" ou com "y", adivinhe onde? No Google, claro. E encontrei textos bárbaros sobre as ditas cujas. Pra falar só nos quatro primeiros resultados -- três são de blogs bem bacanas e um é de página da Seleções do Reader's Digest, reproduzindo um texto da TPM...
Escrito por Soninha às 18h44
Cara de bandida
Ainda sobre ser confundida com bandido, sempre me lembro de uma história de anos atrás, quando eu andava bem mais esculhambada por aí. Eu sei que hoje em dia não me visto bem, porque faço mais questão de conforto do que de aparência e uso roupas um pouco maiores do que a estética recomendaria, mas quando eu tinha 17 anos era bem pior. Calça rasgada antes de ser chique; camiseta velha e furada (pena, essa moda não pegou) :o), tênis beeem usado.
Estava embarcando no metrô Tietê e vi uma mulher se preparando para passar pela catraca. Um filho no colo, outro pela mão, um monte de malas e sacolas. Era uma verdadeira operação de deslocamento de tropas e víveres. Como eu volta e meia me via na mesma situação, me ofereci para ajudar, com o clássico "quer que eu segure"? A mulher agarrou o que pôde e apertou o filho mais fortemente contra o peito; com sorriso muito sarcástico e olhar faiscante, mostrou que estava "esperta": "Não precisa, viu? Obrigada".
Nossa, como eu me senti humilhada. Fiquei morrendo de vergonha. Tentei balbuciar uma defesa, parecer amável, mas acabei indo embora com aquela sensação de "o mundo inteiro está me olhando agora" (ninguém estava). Depois bateu raiva da injustiça. Eu quis ajudar! E o orgulho ferido é como "bala de revórvi". Eu já estava me vendo com uma auréola, como personagem de comercial de banco, agindo com gentileza e em câmera lenta no meio da massa apressada e carrancuda. Que nada, fui tirada de trombadinha...
Se fosse hoje em dia, pelo menos teria o budismo pra me socorrer: "Quem mandou ter expectativa? Você não pode fazer uma "boa ação" esperando reconhecimento. Bem-feito pro seu orgulho". Quer dizer, já estudei essa lição, o que não quer dizer que eu sempre tire nota boa na prova.
Escrito por Soninha às 12h30
Cumprindo promessa
Vou contar a história Police/ tarja preta, que prometi alguns posts atrás.
Em 1986, depois do nascimento de minha segunda filha, tive depressão. Demorei pra saber o que era... Pensava em exaustão, anemia, hipoglicemia, qualquer coisa que me exaurisse a energia, mas sem acreditar que alguma dessas causas pudesse ser tão destruidora. Todo mundo sabe o que é tristeza, angústia, agonia, mas quem não teve não faz idéia do que é uma depressão. Não é vontade de sumir, de se jogar na cama e chorar, de largar tudo, de gritar e sair correndo. É a falta de vontade absoluta. A falta de vontade de acordar, de falar, de comer, de tomar banho, de querer alguma coisa, a falta completa de vontade de continuar vivendo. Nascida da certeza clara, irrefutável, de que viver é estupidamente inútil. É ter a noção de que viver leva tanto a algum lugar quanto uma montanha-russa...
Sabe como eu descobri que era depressão? Lendo o Metrô News (um jornal que é distribuído de graça no metrô de São Paulo). Uma matéria dizia que depressão é doença, que os médicos ainda tinham dificuldade em reconhecê-la, que havia muito preconceito, etc.. E enumerava uns 10 sinais que possibilitavam reconhecer a moléstia (adorei usar essa palavra aqui, é tão pesada quanto precisa ser) -- "Se você tiver 5 ou mais deles, pode estar com depressão". Identifiquei 8.
Para tratá-la, recorri a uma amiga que tinha passado por isso. Lembro o quanto me doeu reconhecer que quando ela estava deprimida, eu tinha sido injusta e preconceituosa, achando que os abismos de desespero em que ela entrava às vezes eram acessos de fraqueza, imaturidade, frescura (como uma ocasião em que abandonou uma excursão do grupo de teatro e voltou correndo para a casa da mãe). Ela disse que havia vários tratamentos possíveis, mas o dela tinha sido orientado por um neurologista. Foi essa trilha que segui - por sorte, já conhecia um, que tinha atendido meu marido pouco tempo antes por um problema no nervo ótico.
No dia da consulta, lembro que fiquei indignada com as janelas abertas no saguão do consultório -- então eles não sabem que a gente pode querer pular? Mas embora quisesse, eu não teria, aleluia, coragem de me matar. Pensar no que seria o efeito do meu suicídio sobre as minhas filhas conseguia me deter. Eu sabia que viver não fazia sentido, mas não podia explicar isso para elas de modo que entendessem...
O médico me receitou dois remédios - o primeiro, durante 20 dias, durante os quais ele avisou que eu iria piorar. "Impossível", pensei. Mas piorei, virei um farrapo rastejante. Estava apresentando uma peça em um festival; que sacrifício medonho era entrar em cena. Lembro também que ele disse que eu precisaria "me ajudar". Quase desabei -- se dependesse da minha ajuda, nunca ia sair daquele fosso.
Encerrando a história: no final do ciclo dos remédios, comecei a melhorar. Já me pegava em um instante "distraída da morte" -- mas bastava atentar para isso para voltar a pensar que ia morrer sei lá quando (hoje? daqui a 60 anos? que diferença faz, afinal?), e por isso não adiantava ou valia a pena me aplicar em nada. De todo jeito, dali a pouco estava distraída de novo, só que não durava.
Até que um dia, passando de ônibus pela Avenida Brás Leme, subindo na Ponte da Casa Verde, aconteceu a "iluminação", a volta à vida sem depressão. Estava ouvindo música no walkman -- era um jeito de tentar sufocar os pensamentos, fazer barulho mais alto do que eles. Mas não era isso que estava acontecendo. Enquanto escutava minha fita do Police, eu tive, pela primeira vez em meses, a sensação de prazer. O prazer normal, corriqueiro mas muito forte que a gente sente quando ouve uma música de que gosta muito. Depois de tanto tempo sem saber o que era "gostar", eu curti Roxane, Message in a Bottle, Every Little Thing She Does is Magic... Curti até ver o rio Tietê da janela do ônibus, o céu, a paisagem feia da minha cidade, embelezada pelo sol da tarde. E mesmo passando de novo pelo processo "Já esqueci da morte, ops, não esqueci mais", a morbidez não durava. Uma das músicas evocava imagens de outras épocas, e pensar que o passado era algo inútil, vazio, inexistente não me incomodava mais. "E daí? Eu vivi e foi bom. Lembrar pode ser bom. "Bom" é inútil -- e daí?". E pensei, com uma racionalidade meio doida pós-depressão, que música é como a vida -- não tem substância, não é "real", não leva a nada, não serve pra nada, mas pode dar prazer, pode dar alegria, e isso é bom. Simplesmente bom.
Escrito por Soninha às 14h38
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