Blog da Soninha
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O que tem tocado...

Pelos olhos das meninas invocadas

Pelos olhos das meninas invocadas

Finalmente, consegui ir ao cinema assistir “A Culpa é do Fidel”. Uma graça!

O filme é contado do ponto de vista de uma menina, filha de ativistas de esquerda no começo da década de 70, na França.

A menina é super invocada. Tenta entender as coisas, esse negócio de Franco e Allende, comunistas e “múmias”, solidariedade e adesismo... Briga com todo mundo, mas aos poucos vai decidindo de que lado está.

Algumas coisas lembram as brigas da minha mãe com o meu avô. Ele amaldiçoando os comunistas – que comiam criancinhas, naturalmente, e que viriam, se pudessem, tomar nossa casa, botar gente para dormir no meu quarto. Ela maldizendo a censura, a opressão, a ignorância. Uma subversiva no seio daquele lar cristão! (Ela também era cristã...).
Outras lembram as minhas filhas pequenas, de saco cheio em um monte de reuniões, não muito animadas para ir a uma passeata. Às vezes elas até brincavam de “reunião” – sentavam uma em frente à outra, com os dedos da mão entrelaçados, girando os polegares um em volta do outro, dizendo, com ar grave: “E agora? O que vamos fazer?”. Duas palhacinhas...

Cheguei em casa e, sem pensar muito, peguei o exemplar de “Persépolis” que uma amiga emprestou e eu só tinha lido até a metade. Esse foi outro filme que assisti e amei, e os dois têm muito em comum: uma criança vê o mundo dos adultos com seus mistérios, seu linguajar incompreensível, suas contradições, seus perigos. Em um contexto de agitação política, incerteza, ânimos acirrados, esperanças e paixões (Persépolis é a história de uma família iraniana na época da revolução que derrubou o Xá, contada em quadrinhos).

Odeio esses imperativos dos Cadernos de Cultura, mas não resisto: leiam o livro! Vejam os filmes!

Escrito por Soninha às 11h55

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Amartya Sen

Amartya Sen

Quando alguém me pergunta “o que você está lendo”, é como se perguntasse “o que você comeu na semana passada” ou “que roupas usou nos últimos dias”. Tenho pilhas de livros pra todo lado, e a cada dia pego um diferente, conforme a disposição. Não é a melhor maneira de desfrutá-los, mas só consigo pegar um livro e não largar quando estou de férias...

 

Estes dias, abri Development as Freedom ("Desenvolvimento como Liberdade", do Amartya Sen) ao acaso, e li isto aqui (tradução por minha conta):

 

Capítulo 12 – Liberdade individual enquanto compromisso social

 

Certa vez perguntaram a Bertrand Russell, que era um ateu convicto, o que ele faria se, depois da morte, acabasse encontrando Deus. Consta que Russell teria respondido, “Vou perguntar a ele: Senhor Deus, por que deste tão pouca evidência de sua existência?”. Decerto o mundo apavorante em que vivemos não parece – ao menos na superfície – um lugar em que uma benevolência toda-poderosa esteja no comando. É difícil entender como um ordem mundial compassiva pode incluir tantas pessoas afligidas pela miséria aguda, fome persistente e vidas desesperadas e deprived, e por que milhões de crianças inocentes têm de morrer todos os anos por falta de comida, cuidados médicos ou assistência social.

 

O tema, claro, não é novo, e foi objeto de uma série de discussões entre teólogos. O argumento de que Deus tem suas razões para querer que nós lidemos com esses problemas por nossa conta tem tido considerável sustentação intelectual. Enquanto uma pessoa não-religiosa,  eu não tenho condições de avaliar os méritos teológicos deste argumento. Mas eu posso apreciar a força da alegação de que as pessoas devem ter responsabilidade pelo desenvolvimento e transformações do mundo em que vivem. Ninguém precisa ser devoto ou não-devoto para aceitar esta conexão básica. Enquanto pessoas que – em sentido amplo – vivem juntas, não temos como escapar da idéia de que as terríveis ocorrências que vemos à nossa volta são, essencialmente, problemas nossos. Elas são nossa responsabilidade – quer sejam ou não de mais alguém também.

 

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Sobre o autor: “Amartya Sen, vencedor do Nobel de 1998 em Ciência Econômica, examina por que, em um mundo de opulência sem precedente, milhões de pessoas vivendo em países ricos e pobres ainda não têm liberdade”.

 

Do Foreign Affairs: “Amartya Sen retoma a antiga e rica tradição de avaliar as considerações sobre eficiência econômica – que dominam a maior parte das análises econômicas modernas – segundo suas conseqüências sociais...”

 

Do Chicago Tribune: “Ao contrário da maioria dos economistas laureados com o Nobel, Sen se concentrou no bem-estar daqueles da base da sociedade, não na eficiência dos que estão no topo”.

 

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Ainda não li o suficiente para saber o que eu acho dele mas, por enquanto, gostei.

Escrito por Soninha às 21h03

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PS

PS

Trilha sonora do sábado à tarde:

 

Ladies with soul, coletânea com Billie Holiday cantando Blue Moon; Peggy Lee, com The Man I Love; Judy Garland, How long has this been going on; Ike & Tina Turner, Let it Be; Dinah Shore, My Funny Valentine; Ella Fitzgerald, Born to Lose, entre outras.

 

No Stone Unturned, Rolling Stones – tem Poison Ivy, The Singer Not The Song, Surprise Surprise, Stoned, Money (That’s What I Want), etc.

 

O Som Brasileiro de Sarah Vaughan – Ela canta Bridges (versão de Travessia), If You Went Away (Preciso Aprender a Só Ser), Someone To Light Up My Life (Se Todos Fossem Iguais a Você) e não muitas mais.

 

Tudo em vinil. Fiquei tão feliz que o meu toca-disco ainda funciona... (Tenho dois aparelhos de CD quebrados e, ao que parece, sem conserto).

Escrito por Soninha às 13h23

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Estupidez e beleza

Estupidez e beleza

Outro dia, conversava com amigos sobre MAUS, obra-prima em quadrinhos do Art Spiegelman em que ele conta os horrores vividos pelo pai judeu na Alemanha nazista. “O livro também fala do relacionamento complicado do autor com seu pai e de como os efeitos da guerra repercutiram através das gerações de sua família. Em 1992 Spiegelman foi agraciado com um "Prêmio Especial Pulitzerr": tal categoria foi proposta pois o comitê de premiação não se decidiu se categorizava Maus como uma obra de ficção ou biografia”, resume a Wikipedia. É fantástico -- e deprimente, como só poderia ser. Ainda assim, recomendo fortemente para todo mundo.

 

Na conversa, alguém perguntou se eu já tinha visto Persepolis, versão cinematográfica da história em quadrinhos (autobiográfica) de uma garota destemida que viveu a  Revolução Islâmica do Irã. Pois eu vi hoje  e amei! Recomendo com a mesma ênfase. É lindo, denso, comovente.

 

Como a história da humanidade é abarrotada de estupidez – e ainda assim se encontra bondade e beleza, até na narração dessa estupidez.

Escrito por Soninha às 21h25

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Entretodos

Entre Todos

Quando eu fazia cinema na ECA (Escola de Comunicações e Artes da USP), vivia no MIS (Museu da Imagem e do Som). Era lá que estreavam os curtas dos alunos da faculdade – e a melhor (quase a única) coisa do cinema brasileiro na época (início dos anos 90, no deserto da era Collor) eram mesmo os curtas-metragens.

 

Não sei como anda o MIS hoje em dia, mas naquela época era movimentadíssimo. A sala de projeção lotava, o bar e os corredores também. Todo mundo se encontrava ali – os estudantes (desencanados ou pretensiosos, sorumbáticos ou divertidos, mas todos muito, muito críticos. Deus, como eu via defeito em tudo...) e as “estrelas” daquele pequeniníssimo mundo: Roberto Moreira, Francisco César Filho, Tata Amaral, André Sturm... Muitos recém promovidos à condição de ex-estudantes.

 

Eu adorava aquele lugar. Até porque a primeira vez que pisei nele não foi para assistir, mas para participar, como atriz, de uma filmagem. Minha atuação foi um lixo, mas eu amei o trabalho dos outros – diretor, assistente, continuísta, diretor de fotografia – e foi assim que decidi fazer cinema. Aquele curta – que era um trabalho de alunos da ECA – mudou minha vida. Até casamento saiu dali (anos depois, com o continuísta...).

 

Nesta semana, bateu um flash back daqueles tempos. Fui ao Centro Cultural São Paulo – que está lindo – assistir aos curtas do Entre Todos, “1° Festival de Curtas Metragens de Direitos Humanos”. Como é gostoso ir ao cinema assistir a 4 ou 5 obras completamente diferentes entre si, no roteiro, concepção, realização. As durações variavam de 1 a 15 minutos. Ótimo!

 

Gostei de tudo o que vi – na verdade, já tinha assistido em DVD no computador, mas a sala escura, a tela grande e a companhia de outras pessoas mudam tudo. E fiquei tocada especialmente com dois filmes: um (“Um bom negócio”) é uma reportagem super simples e super bem feita sobre um caso escabroso – a compra de rins de brasileiros para serem transplantados em pacientes em Israel. Como disse o diretor, a reação de algumas pessoas foi: “Eu pensei que isso fosse lenda urbana!”. Não, ninguém tomou boa-noite Cinderela e acordou em uma banheira cheia de gelo com uma cicatriz nas costas. Mas aconteceu, é uma história absurda, e o filme trata dela muito bem.

 

Se esse trata de algo que a gente praticamente desconhece, a história do outro (“Vida Maria”) é manjadíssima: a menina de algum recanto paupérrimo do nordeste que cresce sem estudo, vive uma vida miserável e tem uma porção de filhos. Desde os primeiros segundos, você já sabe como a história vai terminar. E na vida real também não é assim? A menos que haja uma reviravolta espetacular no roteiro, o fim da história é mesmo previsível, como tem sido há décadas ou séculos.

 

Uma graça particular desse curta é o fato de ele ser em animação – uma técnica que a gente se acostumou a ver associada a cenários diversos – outros planetas, o futuro, uma casa americana no subúrbio -- mas não ao semi-árido. A imagem é bonita, a condução é inteligente, a música é bacana.

 

Os outros três filmes exibidos falam de um mendigo que decide “morar” no corredor de um prédio de apartamentos (“Vitória de Darley”); de corpos constituídos por peças “não-originais” (próteses, órteses...) (“Tudo é Corpo”) e de dois moradores da famosa ocupação Prestes Maia, uma poeta e um catador que, com sonho e empreendedorismo, criaram a biblioteca comunitária e planejam um ônibus-biblioteca (“O Herói da Carruagem Mágica”).

 

A Mostra vai até domingo, com sessões às 16:00, 18:00 e 20:00. Programação no site do Festival e também no do Centro Cultural.

 

Escrito por Soninha às 08h14

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Gostar de Ler

Gostar de Ler

No Saia Justa que foi ao ar hoje à noite, passamos um bloco todo falando sobre livros. Livros comprados e não lidos, livros deixados pela metade, livros queridos.

 

Como é bom falar deles...

 

Me ocorre agora uma comparação estúpida, mas vá lá. Talvez seja porque escrevo vendo o jogo (Santos X Corinthians, bom): pra quem gosta de ler, a conversa sobre a leitura é tão prazerosa quanto a mesa-redonda (na TV ou no boteco) é importante para quem gosta de futebol. Relembrar momentos de um jogo é gostoso como comentar trechos de um livro.

 

Lembro de várias ocasiões em que amigos meus comentavam o que estavam lendo: Doctorow, Nelson Rodrigues, Paul Auster, Guimarães Rosa, John Fante, Cony, Saul Bellow, Fausto Wolff, o “Quase Tudo” da Danusa ou a biografia do Stálin... É muito legal ver alguém completamente envolvido com um livro, querendo falar dele como a gente tem vontade de falar de uma paixão recente.

 

Eu gosto de ler livros com um lápis na mão, assinalando o que gostaria de compartilhar com alguém. E tenho vontade de copiar aqui todo dia um pedaço de texto lido, mas não vou prometer – já bastam os muitos “falo mais sobre isso depois” não cumpridos.

 

Mas vou copiar um trecho hoje: de “Riding The Iron Rooster – By Train Through China”, do Paul Theroux, que é o que (mais) estou lendo agora. Muito legal. Em 86, ele sai de Londres de trem e passa pela França, Alemanha, Polônia, Rússia, Mongólia... Tudo isso no capítulo 1! O resto é China mesmo, mas ainda estou no cap. 3, mal cheguei lá. Olhem que bárbara esta descrição/comentário:

 

“A mim parecia que linhas de trem como esta precisavam de um pouco de variação. Era quase como se estas colinas e vales tivessem sido vistas por tanta gente de passagem que foram gastas de tão olhadas. Um dos atrativos da China, para mim, era ela ter ficado fechada para forasteiros por tanto tempo que até a visão mais lugar-comum de um pagode  pareceria fresca, e na distante Xinjiang um viajante poderia se sentir como Marco Polo, porque há anos nenhum estrangeiro havia estado por lá. Mas esta parte da super viajada França tinha sido esfregada pelos olhos dos excursionistas e passageiros dos trens: a maioria das paisagens perto de estradas-de-ferro movimentadas tinha esse mesmo ar de simplificação, como se fosse uma questão de tempo até que elas desaparecessem de tão olhadas”.

 

Minha tradução estraga um pouco, mas fazer o que? “Tradução é como o avesso do bordado”, disse alguém citado pelo Fernando Sabino. Que eu li no fim-de-semana e mais dia, menos dia vou copiar aqui também. Esse homem fez tão parte da minha vida, e nem soube que eu existia... Às vezes eu acho que tudo que eu escrevo é em “homenagem” a ele, ou melhor, aos quatro daquela coleção “Para Gostar de Ler”: Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga e Paulo Mendes Campos. Se eu ficasse para sempre reescrevendo um pedacinho de algo escrito por cada um deles, já estaria bom demais.

 

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Vamos brincar de “quais seriam os seus livros da ilha deserta”?

Listas podem ser tão grandes quanto vocês quiserem. E podem ir aumentando.

Depois a gente pega os discos :o)

 

Escrito por Soninha às 23h48

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Música compartilhada

Música compartilhada

Hoje ouvi um tango maravilhoso do Piazzolla, “Adios Nonino”. E fiquei com a sensação super incômoda de tê-lo ouvido muito recentemente em algum filme ou seriado, mas não consigo lembrar qual. Alguém faz idéia?

 

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Fui googlar – claro – para tentar descobrir de onde é e achei uma página fantástica, com dezenas de versões da música, todas executáveis (mas, provavelmente, não descarregáveis/copiáveis – não tentei). Tem do Arthur Moreira Lima; da Aurélia Saxophone Quartet, da Holanda; do Cuarteto Viena, da Áustria; do Hamelin Flute Quartet, da Argentina; da orquestra Modern Strings, da Alemanha; da Orquestra Sinfônica de Montreal; do Quartetto Leonardo, da Itália... Inacreditável. No fim da página, o aviso:

 

a) Si usted es el intérprete de alguna versión de esta compilación y no está de acuerdo con tal inclusión

b) Si usted considera que la inclusión de alguna versión vulnera algun derecho de propiedad o norma legal

c) Si usted ha grabado una versión de AN y quiere que la misma sea incluida en esta compilación

d) Si observa algún error en la información que se da, si tiene alguna sugerencia o comentario para hacernos

* Por favor escribanos

 

********

 

Falando em música e internet, viram a notícia de hoje? “Gravadoras processam 8 mil por download de músicas, sendo 20 no Brasil”.   Levanta a mão aí quem pensou “será que eu tô?” >:o)

 

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Ainda sobre esse assunto, fiquei sabendo que ontem (17) ia ter coletiva da IFPI - Federação Internacional da Indústria Fonográfica no Brasil pelo Rio Fanzine,  do Carlos Albuquerque e do Tom Leão. Vale a pena ler o release e o tratamento que os dois deram a ele, ilustrando o post com um cartaz do Tio Sam dizendo: “I want YOU in PRISON”. O título do post, que é de 10/10, é “Tenha medo, muito medo”. Ah, tem de ler também os comentários, como o do cara que diz que ficar numa cela com os caras que baixam música ia ser “bem louco”.  

 

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Só pra constar, a versão de “Adiós Nonino” que eu tinha ouvido e que me trouxe até aqui é do Nestor Marconi Trio. Linda.

Escrito por Soninha às 23h54

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Vagueando

Vagueando

* Na televisão, ontem de manhã, peguei na metade “Bater ou Correr”, mistura alucinada de filme de artes marciais e faroeste que dá uma boa comédia. É cheio de chavões, mas bem feitos. O Jackie Chan é bom tirando sarro de si mesmo, não se levando a sério... Tem luta no saloon, casamento meio à força com a filha do cacique - só que ela é lindona, e normalmente nessas piadas é um brucutu; um trapaceiro que acaba virando aliado, referências a vários outros filmes e personagens... Mas tudo tem sua graça. Na clássica cena do cachimbo-da-paz-em-volta-da-fogueira, por exemplo, Chan tenta falar inglês com os chefes da tribo, e eles comentam entre si, em seu próprio idioma: “Esse panaca está falando bem devagar, achando que assim a gente vai entender”. “Dá logo o cachimbo pra ele assim ele para de encher o saco”. Dali a pouco, o panaca está se matando de rir.

 

* À tarde, na casa de amigos, caiu um tabu: vi Matrix, finalmente. É, minha pontuação no quesito “atualização com os lançamentos cinematográficos” é negativa. Acreditem, não tinha visto Matrix até este 12 de outubro de 2006, sete anos depois da estréia. Adorei. Inteligente, bem escrito, bem filmado (quem já não sabe disso? Até eu, que não tinha visto, sabia), emocionante (no sentido “thrilling”), instigante. Com Keanu Reeves e tudo, que talvez seja um cara muito legal, mas é muito inexpressivo... Seja como um hacker angustiado no século XXII (é isso? Não me lembro a “data real” da história e estou com preguiça de pesquisar agora) ou um policial fortinho embarcado em um ônibus desgovernado, o olhar dele é mais ou menos o mesmo.

 

Deve ser legal ficar caçando no filme as mil e uma referências a literatura, cinema, mitos, etc.

 

Curiosidade boba: enquanto assistíamos, o dono da casa contava que ver o filme também tinha sido “quebra de tabu” pra ele. Nas primeiras três ou quatro vezes em que tentou, aconteceram vários empecilhos – acabou a luz, quebrou o vídeo, sei lá. Ele comentou isso com uma amiga enquanto tentava mais uma vez, e a fita – ainda era cassete... – arrebentou dentro do aparelho. Dei risada com a história. Minutos depois, já de volta ao presente, toca o telefone no filme, em uma cena em que isso provoca um sobressalto. Exatamente na mesma hora, tocou o telefone na casa dele. Não é incrível? Adoro essas coincidências que não significam nada.

 

(Lembrei de uma incrível agora: uma vez, peguei o metrô de manhã com minhas duas filhas pequenas, a caminho de um ensaio de teatro. Sentei ao lado de um cara que ficou prestando atenção, brincando e achando graça nas meninas. Passou-se um dia todo, peguei o metrô de volta para casa. Entre todos os trens, todos os vagões, todas as portas possíveis, peguei um lugar exatamente ao lado do mesmo cara!)

 

* Hoje tirei um tempo para visitar blogs por aí. Entrei em alguns muito legais... Adorei o do João Ximenes Braga, “Cadernos de um espírito-de-porco” (nem é tanto).  No “Talk to Himself Show”, do Allan Sieber (genial, a partir do título – pra quem não manja muito de inglês, uma brincadeira com apresentador de “talk-show” que fala mais que o convidado  -- que fala sozinho, ou consigo mesmo (himself) ). Como os blogs são cheios de links, acabei lendo uma reportagem em quadrinhos publicada no Guardian, sobre dois comerciantes presos em Bagdá sem acusação nenhuma, torturados e abusados por soldados americanos.  Só tem a versão original em inglês...  Em um outro blog – o do Sergio Maggi, com suas “bizarrices, inutilidades e, às vezes, utilidades” – encontrei a dica de um programa que, quando baixado para o seu computador, faz com que as músicas tocadas no WinAmp ou no Windows Media Player apareçam com as respectivas letras. Ainda não baixei pra mim, mas achei demais.

 

* Chega de vaguear. ‘Bora trabalhar mais um pouco.  

Escrito por Soninha às 15h46

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Reflexão (e não provocação - tentando uma conversa que não seja de surdos)

Reflexão (e não provocação - tentando uma conversa que não seja de surdos)

“Três semanas atrás, Jimmy Carter, ex-presidente dos EUA, visitou Cuba. Fidel Castro deixou que ele se dirigisse aos cubanos em espanhol e ao vivo, sem censura. Carter criticou o regime castrista pelo desrespeito aos direitos fundamentais. Fidel aplaudiu e, numa espécie de réplica, enumerou as conquistas sociais da Revolução Cubana.

 

Essa contraposição sem diálogo jogou-me de volta à minha adolescência, nos anos 60, na Itália. Bastava esticar as pernas além da Cortina de Ferro (ao alcance de um carro de estudante) para verificar o horror totalitário do socialismo real. Por outro lado, o “milagre” capitalista do pós-guerra italiano não tratava cada cidadão com a mesma generosidade – longe disso. Embora ambas essas verdades fossem óbvias para todos, entre direita e esquerda só havia um diálogo de surdos, como entre Carter e Castro.

 

Os liberais diziam: “Nos países socialistas, falta qualquer liberdade”. No bate-boca, a esquerda respondia: “A liberdade da qual vocês estão falando é a liberdade de morrer de fome e de não ter emprego”.

 

De um lado, um apelo aos direitos humanos e às liberdades fundamentais; do outro, a proclamação de um sistema justo e participativo. Como entre essas posições não havia mediação, era lógico supor que elas se excluíssem reciprocamente. Os liberais, para proteger as liberdades, deixariam as crianças pobres morrerem de fome. Os comunistas aceitariam a existência do Gulag à condição de que houvesse leite, sopa e pão na mesa de todos. Parecia valer um axioma segundo o qual não haveria liberdade sem injustiça e não haveria justiça sem sacrificar liberdades.

 

Como entender essa idiotice que atravessa o debate político desde o pós-guerra até o encontro cubano de Castro e Carter?”

 

(Trecho de “Seja utopista, peça o possível”, de Contardo Calligaris; coluna publicada em 06.06.2002 e reproduzida no livro “Terra de Ninguém” – 101 crônicas. Permito-me apenas um comentário: hoje em dia, parece que todo mundo -- esquerda, direita ou tico-tico-no-fubá, como diria o Silvio Santos -- discute não a liberdade, mas a “ética” X a “corrpução”. Na verdade, ninguém discute nada, é só ataque e contra-ataque. Conversa de surdos).

Escrito por Soninha às 14h19

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Banda boa

Banda boa

Alguém aí conhece uma banda chamada Pé na Cozinha? Acabei de vir de uma festa (lançamento da revista "Menisqüência", um projeto muito legal que conheci através do Instituto Sou da Paz e que hoje, finalmente, materializou-se na forma da edição no. 1) onde eles estavam tocando.

 

(Acho que hoje bati o recorde de parêntese-mais-longo-a-cortar-uma-frase-no-meio).

 

(E já que hoje é dia de parênteses, vamos abrir mais alguns. Faz uns cinco ou seis anos que conheci os meninos que criaram a revista. Ex-alunos de uma escola estadual na Brasilândia – onde também estudou o Viola, que não tem nada a ver com este assunto – criaram uma ONG para dar aulas de desenho e história-em-quadrinhos. Se não me engano, tiveram essa idéia depois de participar de uma oficina com o Laerte (de quem eu sou muito fã) promovida pelo Sou da Paz. Quando fomos apresentados, eles queriam alguém com um mínimo conhecimento de mídia para ajudar a editar a revista; eu queria uma sala para fazer atividades com o pessoal da favela ao lado do endereço onde eles se reuniam, que por coincidência eu freqüentava. Foi assim que eu comecei a dar aulas de inglês na Sala 5 (que, além de ser o número do espaço alugado em cima da padaria, virou também o nome da ONG). Todo esse tempo a rapaziada se empenou em tentar fazer a revista sair (“fazer sair” foi o caminho que encontrei para evitar dizer “viabilizar”). Só agora conseguiram, e minha contribuição foi pífia -- hoje eles entendem dez vezes mais de fazer revista do que eu. A “Menisqüência”, feita pelos alunos e professores (todos voluntários) da Sala 5 e por alguns colaboradores, vai custar dois reais – um vai ajudar a viabil...  a bancar o próximo número, e um fica com o vendedor).

 

(Vocês repararam que eu abri parênteses dentro dos parênteses?)

 

Mas o que é que eu estava falando mesmo? Ah, sim, tinha lá na festa uma banda chamada Pé na Cozinha, só com bateria e baixo. Muito boa, viu? (A começar pelo nome...) Amanhã vou ver se descubro mais sobre ela.

 

(Tchau).

Escrito por Soninha às 01h25

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Chico, Galvão, Gabriel

Chico, Galvão, Gabriel

A Alessandra Alves convidou para uma visita a seu blog, e por sorte eu entrei na mesma hora. Sorte porque eu anoto mil blogs para visitar depois, “quando der tempo”, e já devo visitas até o Natal. E sorte também porque gostei muito...

 

Pros muito vagabundos ou muito ocupados que também protelam suas visitas, aí vão dois trechos de um post que descreve viagens da família dela ao Rio de Janeiro, no longínquo século XX. A primeira parte é diário de viagem mesmo:

 

“Paulistas rumo a Olaria invariavelmente terminavam perdidos. E invariavelmente pedíamos orientação a alguém no ponto de ônibus. A cantilena até começava, cheia de uma expressão que eu adorava – “segue reto, toda vida” – mas acabava sempre do mesmo jeito: “Olha, eu estou indo para lá, se quiser me dar carona, vou explicando,”, o que me dava a impressão de que todo mundo ia para Olaria, uma Roma extemporânea nos arrabaldes cariocas. E o novo guia suburbano subia em nosso Ford sem que tivéssemos qualquer receio, outros tempos”.

 

A segunda parte tem a ver com o “incômodo” citado em um post aí pra baixo. Depois de contar que foi apresentada à menarca (ao dicionário, se for o caso!) em solo fluminense, ela conta:

 

“Começava meu capítulo fértil, dali para frente eu já poderia gerar novas vidas, deixava de ser menina, mas a única coisa que realmente me importava, preocupava e atormentava era o modess. Fui a primeira da minha turma a menstruar, e a cada mês, quando tinha de lançar mão do detestável acessório, eu sentia como se um enorme outdoor em cores fosforescentes, e piscante, fosse instalado em minha região pélvica. Todo mundo devia estar olhando para aquilo, claro, que vergonha, que vergonha...

 

Se eu fosse a Remédios, de Cem Anos de Solidão, cuja menarca foi esperada como sinal verde para o casamento com o Coronel Aureliano Buendía, nessa altura poderia ter um filho de 24 anos. Uma vez, falei isso para um amigo e ele disse que tal circunstância seria bem provável se eu vivesse no interior da Paraíba. Não vivi, nunca mais fui a Petrópolis, continuei em São Paulo marcando encontros mensais com o Velho Chico em meu vale de fertilidade. A cada visita do rio rubro, um óvulo jogado fora. Faça as contas, 25 anos, um óvulo por mês. Não precisa, eu fiz. Amadureci trezentos deles nestas duas décadas e meia. Desprezei 299. Os últimos ataques de Israel ao Líbano já devem ter superado meu recorde.


Fico pensando nessa força estranha – destino, acaso, missão – que pinçou exatamente aquele óvulo (provavelmente o de número 230) para uni-lo a outra célula e transformá-lo em um menino falante, de olhos vivíssimos, que atualmente adora saber tudo sobre ruas. Fico pensando nos outros 299, fantasio se algum deles não poderia ser o novo Mozart, ou dividir o átomo em algo menor ainda, ou ganhar mais títulos em Wimbledon que Maria Esther Bueno, ou descobrir a cura da Aids, ou promover a paz entre árabes e israelenses. Daí fico pensando que tanta vida não vivida talvez tenha me servido de combustível para fertilizar outros campos, para me preparar melhor a gerar e criar o 230, para me deixar aqui pensando. Um por mês, 299. Nem é tanto, que o digam os machos: milhões a cada ato”.


(Ainda tem, entre outras coisas recentes, um post muito divertido sobre o Galvão Bueno, o convite para comentar um livro marcante na sua vida... Ela fala de Cem Anos de Solidão, do Gabriel Garcia Márquez. O Mauro, que não desiste de sugerir músicas aqui (ainda bem), pode gostar da idéia lá. Ou mesmo cá.)

Escrito por Soninha às 00h53

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Insuportavelmente reais

Insuportavelmente reais

Só uma nota rápida: espantosa a atuação de Fernanda Carvalho no papel principal (Maria/ Isabela) no filme “Anjos do Sol”, que entra em cartaz nos próximos dias. Inspirado em fatos insuportavelmente reais, o filme fala da exploração sexual de meninas e desperta um horror que, espera-se, será transportado para a vida real. Na saída do cinema – vi uma pré-estréia no Cine Olido, no centro de São Paulo, a convite da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social – o comentário era um só: “O pior é que não é só lá nos cafundós de um garimpo; é aqui, atravessando a rua”. Fazer o que? Correr pra onde? Tem tanto o que fazer... Tem de não ter famílias e meninas vulneráveis a ponto de serem vendidas para ou atraídas por esse mundo abjeto. Tem de fazer surgir na sociedade uma indignação absolutamente intolerante com esse tipo de coisa. Tem de combater incansavelmente a escravização de seres humanos, a corrupção, a impunidade.

 

A Fernanda/Maria/Isabela é a de amarelo

 

Lembrei muito de outro filme que já recomendei aqui, “Nascidos em Bordéis” (“Born into brothels”). Esse é um documentário rodado na Índia, também sobre crianças mergulhadas em um mundo sórdido, também de arrasar. Esses (estes!) países emergentes ainda estão tão, mas tão longe de conseguir superar o estado pré-humano a que condenam uma parte do seu povo... Mas esse filme traz um alento, um sopro de ânimo: a possibilidade de alguns meninos e meninos mudarem de vida através da fotografia. É a coisa mais linda, chorei pra burro. Eu chorar não é vantagem, mas acho que é difícil qualquer um se segurar. Um colega meu – médico, pastor e vereador (Carlos Bezerra, tucano) – disse que passou mal também. É o normal, se você não foi um andróide.

 

O filme mostra que nem todos os garotos foram “salvos” pela arte, o que deixa a gente com uma bola de golfe atravessada na garganta. Em todo caso, o projeto não morreu ali: o site http://www.kids-with-cameras.org/bornintobrothels/ traz fotos de autoria deles pra vender, e 100% do que entra vai para os próprios meninos. Nessas horas eu queria ser rica, pra comprar dez de cada. Até porque são lindas.

 

"Telhado de Gour" é o nome dessa foto

 

Últimos comentários sobre o “Anjos do Sol”: já tem várias páginas na internet sobre o filme, inclusive na Wikipedia   (que aguarda contribuições sobre a Fernanda Carvalho). A Mary Sheila, revelação do Nós do Morro , grupo de teatro do Vidigal, no Rio, também arrebenta. E o Antonio Calloni dá vontade de matar, de tão nojento no papel de dono de boate.

 

(E era pra ser só uma nota rápida...)

Escrito por Soninha às 23h40

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Belos, atraentes, fascinantes

Belos, atraentes, fascinantes

Hoje eu fui a uma apresentação do Balé do Teatro Guaíra, muito legal. Eles ficam em cartaz em São Paulo só até domingo, no Teatro Sérgio Cardoso  (Rua Rui Barbosa, 153).

 

São duas coreografias: “Verschwindend Kleine Welt (Pequeno Mundo)” e “Espaço 2”. A primeira é “sobre a perda da memória e o emocional da pessoa que sabe que está nesse processo. O que ela é sem suas lembranças, sem poder confiar no seu próprio julgamento? Como ficam os relacionamentos sem a manutenção do que é compartilhado? (...) A falta de recordações afeta a identidade de que forma? Como é enfrentar o desaparecimento de seu mundo e o surgimento de um desconhecido? Existe uma alegria nas novas descobertas ou uma resignação pela impermanência delas?”. Foi bom ter lido o programa antes de o espetáculo começar. Ele seria perfeitamente desfrutável sem que eu soubesse disso, mas curti mais assim. O segundo número é mais figurativo e facílimo de ler – “são esboços de personagens, pequenas ações que vão se desenvolvendo”.

 

Tanto na primeira quanto na segunda coreografia há um ou outro momento em que o interesse cai um pouco, a imaginação correu menos solta, o espetáculo fica mais convencional e menos tocante ou instigante. Mas esses momentos são plenamente compensados pelo que vem a seguir, são só interlúdios para grandes finais.

O pas-de-deux do fim do “Pequeno Mundo” é maravilhoso. Muito, muito bonito. E o "Espaço 2" tem cenas incríveis, muito divertidas e criativas, e seus duetos também são muito, muito bons.

 

Engraçado que, logo no começo da apresentação, um menino de uns dez anos de idade, meio de mau humor, resmungou com suas acompanhantes: “Isso não é balé de verdade, são uns malucos se jogando no chão”. Os movimentos eram fortes, entrecortados, meio acrobáticos às vezes. "Não combinavam sempre com a música", observou a Julia, 9. No meio da segunda coreografia, depois de uma cena em que todos terminam se atirando vigorosamente ao solo, ele exclamou um “caramba!” incontidamente sonoro e admirado.

 

***

Reparei muito – como não – no corpo das bailarinas. Hoje em dia, elas são menos ressequidas do que as modelos! Corpos tão belos, mulheres tão atraentes, com seios e músculos, olhares delicados, sedutores, significativos, faiscantes, gestos e andares fascinantes. Adorei.

 

***

 

Não queria terminar assim, mas não soube encaixar no meio do texto: o intervalo entre uma coreografia e outra foi muuuito longo. Será que deu algum problema? Tomara que o pessoal melhore o tempo de mudança para amanhã e depois. Mas mesmo com a espera aborrecida, foi bom.

Escrito por Soninha às 01h42

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Urgente! (Mas não é grave)

Urgente! (Mas não é grave)

Ontem estive no centro da cidade e, passando em frente ao Centro Cultural Banco do Brasil, descobri que termina hoje a magnífica exposição “Por Ti América”. Lembrei dela na Alemanha, enquanto passeava pelo Museu do Pergamon, pensando qual tinha sido a última vez em que tinha me emocionado em um museu...  

Percorri os vários andares da exposição no CCBB na madrugada da Virada Cultural, no fim de maio. São mais de 200 peças cedidas por vários museus (na Colômbia, México, Guatemala, Peru e Brasil) e colecionadores particulares. Peças tão belas, com concepção e acabamento tão impressionantes, que explicam sem palavras o que se quer dizer com “cultura sofisticada” ao falar dos povos que vivam nas Américas do Sul e Central há mais de cinco mil anos, como informa o texto de apresentação. E é engraçado pensar que nos referimos a eles como “pré-colombianos”, ou seja, tomando quem veio depois (Colombo, naturalmente) como marco para a existência deles (que é como a gente faz com Cristo, em escala muito maior...).

Eu sempre fui fascinada pela nossa cultura indígena e por incas, maias e astecas, que estão todos representados na exposição. Além deles, há objetos das sociedades olmeca, tolteca, zapoteca, guarita, tairona, tolima, quimbaya, chiriqui, la tolita, cupisnique, mochica, tembladeira, nasca, tiahuanaco, recuay... Nomes que me dão calafrios de emoção. Parece que estou revirando os armários dos meus avós, descobrindo os segredos de pessoas próximas e queridas, ou visitando lembranças de infância. São comparações que soam piegas pra mim também, mas o sentimento é estranho e forte de verdade.

Às vezes as pessoas pensam que exposições são coisas chatas e cansativas. Algumas são mesmo; não é o caso dessa. O Centro Cultural -- lindo! -- é pequeno e facilmente "percorrível". Temo que esteja lotado hoje; eu devia ter vergonha na cara e recomendar a visita com mais tempo, mas fazer o que se este é o último dia? Vai das 10 às 21, na Rua Álvares Penteado, 112, no centro. Perto do metrô Sé e do São Bento, e também do Largo do Patriarca. Como é domingo, não é tão ruim ir de carro. Não é muito difícil parar na Líbero Badaró e andar até lá. Bom passeio...

(A página oficial, de onde tirei as informações acima, é esta aqui. Infelizmente, muito pouco ilustrada. Infelizmente, também, fotos da exposição são proibidas...).  

Escrito por Soninha às 10h10

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Enquanto isso, em Bad Soden...

Enquanto isso, em Bad Soden...

Na foto da poltrona do trem que postei outro dia, apareceu um dos livros que trouxe pra cá, “Três Mulheres de Três PPPês”. Algumas pessoas ficaram curiosas, e como acabei de ler ontem à noite, aproveito pra comentá-lo.

 

O autor é o Paulo Emilio Salles Gomes – na minha passagem pela faculdade de cinema da USP, poucos eram citados com tanto respeito (quase reverência) quanto ele. Crítico, filósofo, militante político (chegou a ser preso e refugiar-se na França, de onde voltou no começo da Segunda Guerra), pode-se dizer que foi um dos responsáveis por transformar cinema em matéria acadêmica no Brasil – foi ele quem criou o curso de cinema da Universidade de Brasília em 64; em 66, começou a orientar teses na USP e em 68 começou a dar aula de História do Cinema. E ele foi um dos fundadores da Cinemateca Brasileira; na verdade, é considerado o pai da idéia de se fazer uma cinemateca no Brasil.

 

Estou resumindo muito a sua história – dá pra achar mais algumas coisas no site da Nova Cultura, que lançou  uma biografia dele, “Paulo Emilio no Paraíso”. O que interessa mais aqui é falar sobre o livro, a reunião de três contos longos (como a ele se refere Antonio Candido), a única ficção que publicou, já no fim da vida (aos sessenta anos).

 

As histórias são sempre contadas por um Polydoro, que odeia o próprio nome. É sempre o mesmo ou não é? Não tem como ser outro, não dá pra ser o mesmo e também não tem a menor importância. São historietas tragicômicas que ele narra com distanciamento maluco, como se não fosse também personagem delas – o que dá um efeito estranho e interessante; afinal, a narração em primeira pessoa “serve” justamente para trazer as emoções do personagem, mas ele as descreve como ausente, alheio, especialmente na última, “P III: duas vezes ela”. É muito curioso.

 

O livro tem paixão, amor e sexo; crítica de costumes e trivialidades conjugais, ironias, ciladas e jogos, muitos jogos. Jogos entre maridos, mulheres e amantes; jogos com letras e números. Tudo muito intrincado, mas simples e divertido como aqueles quebra-cabeças quadrados em que sobra um espaço que a gente usa para deslocar as peças e formar seqüências... (Como é o nome daquilo?).

 

É uma prosa engenhosa, ao mesmo tempo elaborada e... prosaica (“prosa prosaica”?). Às vezes antiquada de propósito, com o leve esnobismo que o próprio narrador admite de passagem. É sempre um jogo de espelhos, de verso e reverso, muito interessante.

 

(continua)

Escrito por Soninha às 10h02

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PERFIL

Soninha Sonia Francine Gaspar Marmo, a Soninha, 40, é vereadora de São Paulo pelo PPS e também colunista da Folha de S.Paulo.

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