Blog da Soninha
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Presidiários VIP

Outro dia houve uma manifestação em Brasília, se não me engano, e também algum pronunciamento do Judiciário contra a política de cotas nas universidades.

 

Eu também já fui contra. Depois mudei de idéia. Algum dia, com mais tempo, posso explicar por quê. Por enquanto, basta dizer que, para mim, é uma medida de emergência, para corrigir uma situação que não pode esperar 20 anos pela solução verdadeira (isto é, a oferta de uma educação de qualidade para todos os brasileiros, de modo que brancos e negros, ricos e pobres, possam concorrer em condições de igualdade por uma vaga na universidade).

 

Os manifestantes a que me referi – militantes de vários movimentos sociais – alegam que a Constituição prevê igualdade para todos, independentemente de sexo, cor, etc., e que as costas, assim, são discriminatórias. Um defensor das cotas respondeu que é discriminação, sim – a chamada “discriminação positiva”.

 

Parece forçação de barra? Então por que aceitamos tranqüilamente essa idéia em outras situações, como a preferência para idosos, gestantes e pessoas com crianças de colo nos balcões de atendimento? É natural imaginar que aqueles que chegam em desvantagem, com dificuldades maiores do que os demais, possam ter alguma vantagem para compensar.

 

Mas eu lembrei disso agora por causa de outra situação prevista na legislação brasileira, em torno da qual nunca há passeatas e abaixo-assinados, mas que é altamente discriminatória: a que prevê celas especiais para criminosos com diploma universitário. Não faz sentido nenhum. Ou bem há um tratamento correto para todos os presos, ou não há que se escolher alguns privilegiados para atendimento VIP na cadeia.

 

Como diz um amigo meu, se o cara tem ensino superior completo – isto é, se, em princípio, não foi alguém privado de todas as oportunidades no mundo, como tantos outros largados por aí sem qualquer referência positiva na vida – e comete um crime, isso não deveria torná-lo candidato a um tratamento mais brando, mas quase o contrário. (Embora o mais correto seja, insisto, a pena justa para qualquer um e nada mais).

Escrito por Soninha às 08h19

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Frase do Dia

Por mera coincidência (eu acho), de um autor argentino, nascido em Buenos Aires:

Hay dias en que me levanto con una esperanza demencial, momentos em  los que siento que las posibilidades de una vida mas humana estan al alcanze de nuestras manos. Este es uno de esos dias. (Ernesto Sabato).

Assim como o desânimo nem sempre tem uma causa concreta, palpável, fácil de identificar, o ânimo também não tem. Provavelmente existem sempre motivos suficientes para uma coisa tanto quanto para a outra, e nossa inclinação é que é mais pessimista ou otimista, mais para a ação ou para a paralisia.

Hoje acordei aflita como sempre, mas o dia me animou.

Escrito por Soninha às 13h27

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E essa...!?

Escrito por Soninha às 21h54

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+ notas de viagem

Do que se falou na Argentina nesses dias:

 

- Inflação (a coisa tá ficando feia)

- Protestos no campo (fecha estrada, abre estrada...)

- Falta de combustível (vi filas nos postos)

- Referendo na Bolívia (como aqui)

- Mortes no trânsito (por todo lado há adesivos: "Se beber, não dirija". E vi um carro de "controle de alcolemia").

- Menino que salvou a irmã (enfim, uma notícia boa: uma menina caiu na piscina e o irmãozinho, pouco mais velho que ela, mergulhou, prendeu a respiração e ficou por baixo dela, mantendo sua cabeça acima da linha d'água, até que um adulto viu e socorreu os dois. Uma graça).

 

***

Momento caos aéreo:

 

Como eu disse, passei quase quatro horas dentro de um avião parado na pista. Pelo que fiquei sabendo depois, a confusão começou na véspera (parece que teve gente que dormiu no aeroporto). Saí do hotel às 4:30, desembarquei do ônibus em Ezeiza (aeroporto) às 5:33 e havia uma fila inacreditável no check in. Tão longa e tortuosa que todo mundo que chegava ao fim dela perguntava: "Aqui é a fila da Varig?". Estava no balcão da companhia às 6:45. Até pagar a taxa de embarque e passar pela alfândega, já eram 7 horas - originalmente, o horário da decolagem. A partida atrasou por causa do nevoeiro, mas às 7:30 nos chamaram para embarcar. E dentro do avião ficamos, até as 11:20!

 

Engraçado foi que às 11:10 resolveram servir o almoço - antes que um passageiro mordesse o outro (se bem que estávamos razoavelmente calmos e conformados. Uns dormiam, outros despachavam por telefone... Ao meu lado, alguém negociava ações. "12%? Tá bom, hein? E o valor nominal? Compra. E o que a gente tem encalhado aí? BM&F? É, mas tão dizendo pra não vender agora..."). O carrinho estava no meio do caminho quando alguém veio avisar: "Abriu!". Em seguida, fala o comandante: "Preparar para decolar". Quem já tinha começado a comer teve de engolir correndo, o avião saiu andando enquanto pediam para desligar os celulares e colocar os assentos na posição vertical as instruções de emergência foram dadas rapidinho em português (como se alguém prestasse atenção). Em inglês, avisaram apenas: "Olhem as instruções no folheto".

 

O passageiro ao meu lado deduziu o óbvio: se tivessem começado a servir o rango mais cedo, o nevoeiro teria se dissipado antes!

Escrito por Soninha às 21h27

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Ainda o fútbol

Marcos nunca tinha sido campeão paulista jogando, como ele mesmo faz questão de lembrar. Em 96, era reserva do Velloso.

 

Logo depois da partida de domingo, agradeceu ao “Luxemburgo, Carlão, seu Valdir, Filé”. ”Acreditaram em mim quando nem eu mesmo acreditava”. Também ao clube e o patrocinador, “que me pagou dois anos de salário e eu parado”. Eu, como ele, também não acreditava que ele fosse voltar a jogar em alto nível.

 

A trajetória do Marcos deve ser única no planeta: depois de ser campeão da Libertadores e Mundial (Copa de 2002), comemorou um título de Série B (que ele fez questão de disputar) e, agora, o Estadual. E queria tanto esta última conquista quanto as duas primeiras.

 

Mais tarde liberaram as imagens do goleiro no vestiário antes do jogo, emocionado, fazendo uma "palestra" de incentivo para os colegas. É curioso que ele fala sobre a dureza que é ficar “quebrado” durante meses, fazendo exercícios doloridos e entediantes sem saber se vai conseguir voltar a jogar ou não - um sofrimento que não é difícil de imaginar - mas dá quase a mesma ênfase a "ficar concentrado", tratando isso também como um sacrifício danado. E não agüentar mais concentração é um dos motivos citados citados pelo goleiro para pensar em encerrar a carreira.

 

Esse negócio é bem esquisito mesmo. Se fosse só em fases finais, especialmente desafiadoras, em que há muita agitação e pressão... Mas ter de dizer tchau para a família e passar a noite em um hotel em São Paulo na véspera de cada jogo deve ser mesmo muito irritante. Especialmente quando você não consegue ver utilidade verdadeira naquilo. Quando não é nenhum moleque bocó que vai se deslumbrar com alguma coisa. (Ok, não são só os moleques que são bocós e se deslumbram...). Mas já pensou se a moda pega? Quanto tempo de concentração se aplicaria à equipe que vai trabalhar em uma neurocirurgia?

 

***

Foram divulgadas também imagens da preleção de Luxemburgo antes do jogo. Ele entregou uma camisa e faixa de campeão a cada jogador e fez um discurso enérgico, grandiloqüente. Hmm... Não me impressionou, não. Acho Luxemburgo um  grande técnico (só faltava não achar), capaz de fazer cada jogador render o máximo possível, identificando suas qualidades, a melhor posição em campo e a melhor combinação entre eles. E capaz de algo que aprecio muito, que é fazer um time jogar bonito. Mas isso não tem nada a ver com os estratagemas de motivação no vestiário... Uns anos atrás, distribui fraldas para os jogadores mais jovens do Cruzeiro, para que escolhessem se queriam "se borrar" ou assumir a responsabilidade como homens. Então tá. Se ele desse faixas de campeão e fizesse o mesmo discurso no vestiário da Ponte, o título teria ido para Campinas?

 

***
O zagueiro César, da Ponte, disse que, na hora do desentendimento entre os jogadores dos dois times no fim da partida, pediu para o Valdivia sair de perto, que não tinha nenhum problema com ele. “Fez um campeonato brilhante, não tinha de estragar por bobagem no final”. Mas o Denilson ele não perdoou: “Ele tem muita qualidade pra jogar para o time, não precisa jogar pra torcida”. Gostei da definição.

 

Esse negócio de entender drible como “desrespeito” me tira do sério. Nem por isso eu acho que vale tudo em la cancha (como estou há três horas e meia parada dentro do avião no aeroporto de Buenos Aires, ainda estou meio portenha, e meio grogue). Tem provocação tonta, sim. (Mais tonto é quem cai na provocação, mas falar é fácil quando não é com você...).

 

***

Já o Sérgio Guedes, técnico da Ponte, deu um bico na canela. Disse que o Valdivia extrapola porque é chileno - "eles não ganham nada, então não sabem se comportar direito quando estão por cima". Tsc, tsc, não precisava...

Escrito por Soninha às 08h52

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Perto e longe - uma fotonovela

- Cuantos millones de dollares valería hoy um Di Stefano?

- Imagine cuanto vallerian Maradona y Pelé!

 

Não sei escrever (nem falar) castellano, mas fico feliz por entender quase tudo.

São 15:10 em Buenos Aires, 19°, e o canal C5N transmite, ao vivo, imagens que antecedem o clássico que está para começar na Bombonera. A conversa dos comentaristas é docemente familiar. Nem precisavam citar Pelé. Já ouvi isso tudo antes...

 

***

“Será que vou ao jogo?”, me perguntei ontem. Isso lá é pergunta que se faça? É CLARO que eu devia ir ao jogo. Mas agora é tarde demais.

 

Cerca de quarenta minutos atrás, eu tomava um capuccino no Café Havana na Calle Florida e lia o Clarín.

 

Capa do caderno de Esportes – vejam vocês mesmos...

Estúpida! Por que não tomei providências para ir ao estádio? Imperdoável!

 

Si joga el grand clássico que vale a ponta do campeonato para River. Se gana este partido, Boca estará ubicando muy cerca...”, seguem os comentaristas na TV.

As matérias no jornal falavam dos grandes duelos: os goleadores Palermo e Falcão, os “diez” Riquelme e Ortega, os técnicos Simeone e Ischia. E avisam:

AAHHHH, não acredito que não estou lá? Será que pego um táxi agora e fico do lado de fora do estádio, sacando fotos, ouvindo os cânticos?

 

Outros destaques: o árbitro...

 

A presença da imprensa estrangeira...

(NÃO ACREDITO que eu não fui!)

 

Cambistas...

(Que bom que eu não fui?)

 

***

Lembro de dilemas semelhantes na Copa da Alemanha. “Fico aqui vendo o jogo pelo monitor do estúdio ou vou ver como estão os arredores do estádio? Tento entrar, com minha credencial, para assistir ao menos ao primeiro tempo – e perco parte do segundo, enquanto volto para o hotel – ou assisto à partida toda, confortavelmente, com narração, comentários, teleobjetivas e replays?”

 

***

O que não tem remédio, remediado está. Estou no quarto do hotel, na frente da TV. (Também porque não quero perder nada da final do Paulista – que vou “ver” pela transmissão de rádio na internet, bendita seja!).  

 

***

“La policia está coriendo para persuadir a gente de River –  hinchas sin entradas – agressiones – botellas”. Pesco algumas palavras e não preciso mais do que isso: pequeno princípio de tumulto do lado de fora do estádio.

 

Que bom que eu não fui?!

 

***

-- Este é o clássico de número 182. Quanta responsabilidade do árbitro – um mínimo erro... Pela colocação dos dois na tabela... 

(Às vezes cansa escrever em outra língua. Ainda mais inventada).

 

-- Riquelme saca um patazo impressionante... 

(Às vezes não tem a mesma graça em português...)

 

Caí do cavalo argentino. O jogo não passa em nenhum dos 60 canais do hotel, mas tenho duas opções de transmissão de imagens... Da arquibancada. Câmeras ficam percorrendo a torcida, enquanto há narração e comentários em off. Sim, rádio com imagens, quase literalmente...

 

-- GOL DE PALACIO?. ... [suspense minúsculo]... NO, es mejor arquero do mundo! Hijo de diós!

-- Palácio faz um gol em cada oito tentativas... “Define siempre igual”, [resmunga o comentarista].

-- Mas que lançamento de Palermo...

 

Segundos depois, foi gol do Boca. Bataglia. Pelo que entendi, foi um centro do Palácio. (Corrigindo, a posteriori: claro que não, foi um escanteio cobrado por Riquelme, quem mais?). Festa doida na torcida... Muitas mulheres, algumas crianças.

 

***

No intervalo, cheerleaders usando um collant azul e amarelo de manga comprida (tá frio...) e metade da bunda de fora. Urgh.

 

***

Não vi mais nada do jogo – ou melhor, da torcida. Começou a final do Paulista.

 

***

Uma palavra sobre o título do Palmeiras? Merecido.

 

***

Algumas palavras sobre:

1) O título do Flamengo -- Que semana gloriosa! Que meses! Que ano!
2) O título do Inter -- !!!!!!!! (Não são palavras, mas não as encontro)

3) O título do Itumbiara – Estadual é isso aí! Às vezes o grande se dá mal...                                       

 

***

O que eu vim fazer em Buenos Aires?

Eu e, por assim dizer, a torcida do Flamengo?

(É mais fácil ouvir português aqui em um feriado do que em Florianópolis).

Bom, a maioria veio passear. Eu vim para um seminário da Fundación Contemporánea, mas sobre isso eu falarei depois no outro blog.

Escrito por Soninha às 23h05

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PERFIL

Soninha Sonia Francine Gaspar Marmo, a Soninha, 40, é vereadora de São Paulo pelo PPS e também colunista da Folha de S.Paulo.

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