Blog da Soninha
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Chocante e banalizado

Quando o caso da Isabella for resolvido, vai ter gente que vai sentir um vazio, uma ausência... Vão achar estranho ligar a televisão e não ouvir mais nada sobre perícia, investigação, advogados, revelações exclusivas...

 

Ontem um programa de TV prometeu a seus espectadores uma reportagem com “visão privilegiada” da reconstituição do crime.

“Privilegiada”? Santo Deus! Do que estamos tratando, do camarote VIP de um show de rock?

 

***

Será que todas as vezes que eles falam no edifício London precisam dizer “no apartamento de onde a menina foi jogada pela janela”? Como podem repetir tantas vezes “menina jogada pela janela” como se estivessem falando uma frase qualquer, que não significa nada de mais? Ao mesmo tempo em que tentam manter o interesse no crime em alta, baseados no fato (real) de que é natural ficarmos fixados em algo tão chocante, a repetição vai tornando o fato em si algo banal, sem importância. Jogaram uma menina de cinco anos pela janela, jogaram uma menina pela janela, jogaram pela janela... Já faz tempo que esqueceram que ela era uma criança que morreu; virou um personagem de romance policial, como se tivesse sido inventada por Agatha Christie.

 

***

Antes eu me queixei do fato de as crianças mortas em tiroteios nas favelas não receberem nenhuma atenção. Não têm história, fotografias, não têm nem nome. Alguém respondeu que é “normal” morrer criança de “bala perdida” na periferia, mas não é normal uma criança de classe média (ou qualquer classe) morrer como morreu Isabella.

 

Achei um absurdo alguém chegar ao ponto de achar que criança morrer de tiro é normal. Mas, pensando bem, se todas as mortes violentas de crianças tivessem a mesma cobertura exaustiva – exaustiva mesmo – do caso da Isabella, talvez acabássemos achando tudo banal... “Você viu? Mataram mais uma menina. Que coisa”.

 

***

Em duas notícias sobre filhos aprisionados pelos pais – aquela história absurda na Áustria e outra aqui no Brasil – os carrascos alegaram estar protegendo os filhos (das drogas, do crime, etc.). Incríveis as barbaridades de que somos capazes supostamente para o bem do outro – como desculpa esfarrapada ou por acreditar realmente nisso.  

Escrito por Soninha às 10h15

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Mal estar de 2008

Trechos da entrevista do filósofo, historiador e sociólogo francês Edgar Morin, de 87 anos, ao jornalista Samy Adghirni, na Folha de hoje (segunda). Recorte e grifos meus.

 

FOLHA - Um levante semelhante [a Maio de 68] seria possível hoje em dia?
MORIN
– (...) Hoje em dia, movimentos estudantis se generalizam rapidamente e prosseguem mesmo quando o governo satisfaz os seus pedidos. É a alegria de estar juntos na rua, de desafiar os professores e a polícia. Até quando as reivindicações são ridículas, o fenômeno é importante, pois permite ao jovem tornar-se cidadão, escapando assim da crescente tendência ao apolitismo.

FOLHA - Mas o mal-estar que causou Maio de 68 permanece...
MORIN
- Não só permanece, como agravou-se. Onde há vida urbana e desenvolvimento, há estresse e ritmos de trabalho desumanos. A poluição causa males terríveis, e nossa civilização é incapaz de impedir a criação de ilhas de miséria. Mas o que piorou mesmo foi o fato de termos perdido a fé no progresso. O mundo ocidental dava como certa a idéia de que o amanhã seria radioso. Mas, nos anos 90, percebeu-se que a ciência trazia também coisas como armas de destruição em massa e que a economia estava desregulada, enterrando de vez a promessa de que as crises haviam deixado de existir.

(...)

FOLHA - Uma das maiores mudanças mundiais das últimas décadas, a internet, na sua opinião, afastou ou aproximou as pessoas?
MORIN
- Se considerarmos o fato de a internet ser um instrumento polivalente, que serve até aos interesses do crime, acho que a rede aproxima as pessoas. A internet tornou-se um sistema nervoso artificial que tomou conta do planeta. É algo que ajuda muito na hora de desenvolver afinidades, encontrar amigos, amores ou parceiros de hobby. A internet é um fato universal importantíssimo.
Mas os sistemas de comunicação não criam compreensão. A comunicação apenas transmite informação. É preciso estimular o surgimento de uma consciência planetária. Se a internet não desenvolver a idéia da comunidade de destinos da humanidade, terá apenas uma função limitada e parcelar.

Escrito por Soninha às 13h11

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O Fim da Virada

“Feliz Ano Novo!”

“Dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe pooorco!”

“Virada cul-tu-ral!”

A multidão no meio da avenida São João curtia a noite (que parecia de verão) depois do bis do Jorge Benjor. Cada um gritava o que queria – até “eu vou embora de guindaste!”, como uma galera empoleirada na base de um, sem ser importunada.

Além dos gritos, os fogos de artifício que encerraram a Virada foram saudados com palmas e assobios. Quando o locutor mandou um “Parabéns São Paulo!” no palco, o público reagiu concordando, como se fosse aniversário da cidade outra vez.

Muito legal.

‘Tinha de ter Virada todo mês!”, disse um mais empolgado. Casais se beijavam. Jovens com jeito de universitários e homens com cara de sem-teto tiravam fotos com celulares.

Pena o lixo, pena o cheiro de mijo. Isso também é São Paulo...

Mas música e encontros ao ar livre fazem dela um lugar mais bacana. 26 horas depois de começar, a Virada terminava bem. Muito bem.

Escrito por Soninha às 22h26

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PERFIL

Soninha Sonia Francine Gaspar Marmo, a Soninha, 40, é vereadora de São Paulo pelo PPS e também colunista da Folha de S.Paulo.

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