Amartya Sen

Quando alguém me pergunta “o que você está lendo”, é como se perguntasse “o que você comeu na semana passada” ou “que roupas usou nos últimos dias”. Tenho pilhas de livros pra todo lado, e a cada dia pego um diferente, conforme a disposição. Não é a melhor maneira de desfrutá-los, mas só consigo pegar um livro e não largar quando estou de férias...

 

Estes dias, abri Development as Freedom ("Desenvolvimento como Liberdade", do Amartya Sen) ao acaso, e li isto aqui (tradução por minha conta):

 

Capítulo 12 – Liberdade individual enquanto compromisso social

 

Certa vez perguntaram a Bertrand Russell, que era um ateu convicto, o que ele faria se, depois da morte, acabasse encontrando Deus. Consta que Russell teria respondido, “Vou perguntar a ele: Senhor Deus, por que deste tão pouca evidência de sua existência?”. Decerto o mundo apavorante em que vivemos não parece – ao menos na superfície – um lugar em que uma benevolência toda-poderosa esteja no comando. É difícil entender como um ordem mundial compassiva pode incluir tantas pessoas afligidas pela miséria aguda, fome persistente e vidas desesperadas e deprived, e por que milhões de crianças inocentes têm de morrer todos os anos por falta de comida, cuidados médicos ou assistência social.

 

O tema, claro, não é novo, e foi objeto de uma série de discussões entre teólogos. O argumento de que Deus tem suas razões para querer que nós lidemos com esses problemas por nossa conta tem tido considerável sustentação intelectual. Enquanto uma pessoa não-religiosa,  eu não tenho condições de avaliar os méritos teológicos deste argumento. Mas eu posso apreciar a força da alegação de que as pessoas devem ter responsabilidade pelo desenvolvimento e transformações do mundo em que vivem. Ninguém precisa ser devoto ou não-devoto para aceitar esta conexão básica. Enquanto pessoas que – em sentido amplo – vivem juntas, não temos como escapar da idéia de que as terríveis ocorrências que vemos à nossa volta são, essencialmente, problemas nossos. Elas são nossa responsabilidade – quer sejam ou não de mais alguém também.

 

****

Sobre o autor: “Amartya Sen, vencedor do Nobel de 1998 em Ciência Econômica, examina por que, em um mundo de opulência sem precedente, milhões de pessoas vivendo em países ricos e pobres ainda não têm liberdade”.

 

Do Foreign Affairs: “Amartya Sen retoma a antiga e rica tradição de avaliar as considerações sobre eficiência econômica – que dominam a maior parte das análises econômicas modernas – segundo suas conseqüências sociais...”

 

Do Chicago Tribune: “Ao contrário da maioria dos economistas laureados com o Nobel, Sen se concentrou no bem-estar daqueles da base da sociedade, não na eficiência dos que estão no topo”.

 

****

Ainda não li o suficiente para saber o que eu acho dele mas, por enquanto, gostei.