Quando se fala em desmatamento na Amazônia, alguns vilões vêm à mente: madeireiras, pecuaristas, agricultores. Realmente, derrubar floresta tão preciosa para fazer pastagem ou lavoura no solo pobre da Amazônia é estúpido e vender madeira sem se preocupar com sua própria extinção, idem – sem falar nos óbvios danos ambientais.
Mas o pior é que tem madeira derrubada ilegalmente que a gente nunca viu e não vai ver. Que não vai abastecer o mercado de móveis e da construção civil (o que já seria ruim o suficiente, mas, nesse caso, nós ao menos temos como pensar em mecanismos para coibir esse comércio). Uma parte da floresta vai ao chão simplesmente para virar carvão.
A Miriam Leitão fez uma viagem pela Amazônia para uma série de reportagens na Globonews, que eu não vi, mas passou um trecho no Bom Dia Brasil. Ela acompanhou o IBAMA e a PF em uma blitz a uma carvoaria. Eles tinham autorização para operar 10 fornos. Sabe quantos havia? CENTO E OITENTA. No total das operações, mais de mil fornos ilegais foram destruídos.
Para que tanto carvão? Para siderurgia.
Quer dizer então que as diletas siderúrgicas, tão preocupadas com o progresso da nação, compram carvão e nem percebem que o volume comercializado é quase vinte vezes maior do que seria a capacidade autorizada da carvoaria? Sei, sei... É, não devem nem ter pensado nisso. Por que se preocupariam com a origem do carvão consumido em seus fornos, né?
Tem muita gente que continua achando que “responsabilidade social” ou “sócio-ambiental” é uma atividade extra, uma ação de benemerência, um slogan para ostentar em adesivos no pára-brisa. Como se o mundo da empresa não fosse esse mesmo em que a gente vive; como se a irresponsabilidade não viesse a cobrar caro deles também.
Escrito por Soninha às 08h48
“Internacional, Vasco e Botafogo se classificaram para a próxima fase da Copa do Brasil. Ninguém teve vida fácil, mas quem passou mais apertado foi o Internacional”.
Resultados das partidas:
Botafogo 2 X 1 Portuguesa
Criciúma 2 X 2 Vasco
Internacional 5 X 1 Paraná
Quem não conhece o regulamento da Copa do Brasil, não sabe quais foram os resultados dos jogos de ida e nem a ordem dos tratores sobre o viaduto no Beira Rio pensa que o repórter viajou na notícia. Viajou não.
Na Copa do Brasil, os jogos são sempre em ida e volta. Ou seja, uma partida na casa de um time, outra na do outro. Todas as fases são eliminatórias – um time segue, o outro sai fora. Segue o que tiver mais pontos -- quem venceu os dois jogos ou venceu um e empatou o outro. Em caso de empate em pontos (uma vitória pra cada lado ou dois empates), vence quem tiver feito mais gols. E se os dois times tiverem feito o mesmo número de gols... Vale mais o gol fora de casa. (Se ainda assim continuar empatado, vai para os pênaltis).
Pois muito bem. No jogo em Curitiba, o Paraná venceu o Inter por 2 X 0. No começo do jogo em Porto Alegre, (aos 3 minutos!), o Paraná fez 1 X 0. Ou seja: tinha 3 gols a seu favor, e 1 fora de casa! Não adiantaria nem o Inter fazer 3 gols apenas; teria de fazer 4. Se isso não é passar aperto...
Aí fez – 5. Três saíram no primeiro tempo (aos 5, 32 e 42 minutos). Aos 19 do segundo tempo, o Magrão fez um golaço e o Inter ficou perto da vaga (se o Paraná marcasse mais um gol, babau). O Paraná quase fez – aos 31 teve bola na trave do Clênio. Mas aos 46 o Inter fez o tal do quinto gol.
Eis como o futebol permite que um placar de 5 X 1 seja sinônimo de “passou apertado”.
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O Inter foi glorioso. Mas é importante registrar que o Paraná se sentiu sacaneado pelo árbitro (teve dois jogadores expulsos e reclama de um pênalti não marcado). Como só vi os gols e os quase-gols, não sei...
Escrito por Soninha às 13h34
Quer dizer então que no Dia da Terra, ela tremeu?
Imagino como ficou o mar em algum ponto a 218 km de São Vicente.
5.2!
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Minha filha achou que estava tonta, até perceber que era o mundo que estava balançando.
Eu não senti nada. Perdi!
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Quando eu era pequena, tinha pavor de terremoto. Créditos para uma matéria da Seleções, com a descrição da experiência aterrorizante de uma família, e outra da National Geographic, com ilustrações de fendas gigantescas tragando uma cidade. Mas minha mãe explicou que não era bem daquele jeito. E que, caso um dia acontecesse comigo, era para ficar debaixo de um batente ou de uma mesa, “porque são estruturas que resistem melhor ao impacto e fica uma bolha de ar para você respirar”. Fiquei bem mais tranqüila...
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Lembrei agora que o Lenine morre de medo de avião porque pegou um terremoto feio no México, e disse que o barulho lembra muito o das turbinas.
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Além de terremoto, eu tinha muito, muito medo de guerra. De uma catástrofe nuclear ou do modelo mais tradicional, com trincheiras, lama, arame farpado, fuzis. Em sonhos, cansei de ser atingida nas costas e cair de cara no chão. Tão real a experiência que parecia uma lembrança, não uma invenção.
Eu tinha certeza de que, quando a minha geração crescesse, não haveria mais guerras. Todas as crianças achavam-nas estúpidas, absurdas. É claro que nós não faríamos igual.
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Como não lembrar também da música do Premê?
(Bem Brasil)
(...)
Sofá onde todo mundo senta
onde a gente sempre põe mais um
Oh! berço esplendido agüenta
Toda essa galera em jejum
(...)
Aqui não tem terremoto
Aqui não tem revolução
É um país abençoado
Onde todo mundo põe a mão
(...)
Mais do que um piano é um cavaquinho
Mais do que um bailinho é o carnaval
Mais do que um país é um continente
Mais que um continente é um quintal
E pensar que a parte que perdeu a validade foi bem a do terremoto!
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Comentário da minha outra filha, ouvindo agora um sismólogo falar sobre o tremor com a maior tranqüilidade no SBT: “Eu adoro especialista!”.
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Eu não queria passar pelo Dia da Terra sem escrever, mas a idéia era participar da blogagem coletiva sobre questões ambientais. Para não deixar de falar nelas, vamos lá.
O movimento ambientalista já ostentou vários slogans e bandeiras. “Salvem as baleias” (e as focas, os micos-leões dourados, a ararinha azul, o bagre, a Amazônia); “Reduza, reutilize, recicle”. Todos com seu valor, apesar da eventual avacalhação (como se defender o mico ou o bagre fosse piada; como se o desaparecimento de uma espécie fosse algo sem maiores conseqüências).
Mas existe um slogan que é perfeito – e aplicável de muitas maneiras, e não só no que diz respeito ao meio ambiente (se bem que isso já é quase tudo): “Pense globalmente, aja localmente”. Impecável, irrefutável.
A medida da “ação local” varia conforme a disposição, a disponibilidade, o talento e habilidade de cada um. Alguns iniciarão, às vezes sem sair de casa, uma grande mobilização. Pressionarão políticos e empresários. Outros formularão políticas públicas ou tomarão providências na empresa que dirigem – para economizar o consumo de energia, reduzir a produção de resíduos e emitir menos gases poluentes e de efeito estufa. Outros, ainda, mudarão seu comportamento em casa – tomarão banhos mais curtos, substituirão copos descartáveis por canecas de vidro e jamais, jamais usarão o esguicho para empurrar lixo na calçada. Todos têm sua importância.
Não devemos jamais perder de vista o impacto de cada uma de nossas escolhas. E são milhares de escolhas por dia, ainda que não nos demos conta de todas elas. É muito fácil minimizar o impacto de um gesto preguiçoso, irrefletido e irresponsável – “Ah, é só uma bituca, qual é o problema de jogar no chão?”. Também é fácil menosprezar o impacto de um gesto valioso, como apagar uma lâmpada acesa à toa ou carregar o bendito papel de bala até que apareça uma lixeira.
Se estivéssemos sozinhos na Terra, talvez não fizesse mesmo muita diferença. Como somos bilhões, não podemos nos dar ao luxo de ignorar a conseqüência de cada gesto. Parece contraditório, não parece? Se somos bilhões, que diferença faz a atitude de um indivíduo? Aí é que está a “pegadinha” – na acumulada, faz toda a diferença do mundo.
Escrito por Soninha às 01h30
Amartya Sen
Quando alguém me pergunta “o que você está lendo”, é como se perguntasse “o que você comeu na semana passada” ou “que roupas usou nos últimos dias”. Tenho pilhas de livros pra todo lado, e a cada dia pego um diferente, conforme a disposição. Não é a melhor maneira de desfrutá-los, mas só consigo pegar um livro e não largar quando estou de férias...
Estes dias, abri Development as Freedom ("Desenvolvimento como Liberdade", do Amartya Sen) ao acaso, e li isto aqui (tradução por minha conta):
Capítulo 12 – Liberdade individual enquanto compromisso social
Certa vez perguntaram a Bertrand Russell, que era um ateu convicto, o que ele faria se, depois da morte, acabasse encontrando Deus. Consta que Russell teria respondido, “Vou perguntar a ele: Senhor Deus, por que deste tão pouca evidência de sua existência?”. Decerto o mundo apavorante em que vivemos não parece – ao menos na superfície – um lugar em que uma benevolência toda-poderosa esteja no comando. É difícil entender como um ordem mundial compassiva pode incluir tantas pessoas afligidas pela miséria aguda, fome persistente e vidas desesperadas e deprived, e por que milhões de crianças inocentes têm de morrer todos os anos por falta de comida, cuidados médicos ou assistência social.
O tema, claro, não é novo, e foi objeto de uma série de discussões entre teólogos. O argumento de que Deus tem suas razões para querer que nós lidemos com esses problemas por nossa conta tem tido considerável sustentação intelectual. Enquanto uma pessoa não-religiosa, eu não tenho condições de avaliar os méritos teológicos deste argumento. Mas eu posso apreciar a força da alegação de que as pessoas devem ter responsabilidade pelo desenvolvimento e transformações do mundo em que vivem. Ninguém precisa ser devoto ou não-devoto para aceitar esta conexão básica. Enquanto pessoas que – em sentido amplo – vivem juntas, não temos como escapar da idéia de que as terríveis ocorrências que vemos à nossa volta são, essencialmente, problemas nossos. Elas são nossa responsabilidade – quer sejam ou não de mais alguém também.
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Sobre o autor: “Amartya Sen, vencedor do Nobel de 1998 em Ciência Econômica, examina por que, em um mundo de opulência sem precedente, milhões de pessoas vivendo em países ricos e pobres ainda não têm liberdade”.
Do Foreign Affairs: “Amartya Sen retoma a antiga e rica tradição de avaliar as considerações sobre eficiência econômica – que dominam a maior parte das análises econômicas modernas – segundo suas conseqüências sociais...”
Do Chicago Tribune: “Ao contrário da maioria dos economistas laureados com o Nobel, Sen se concentrou no bem-estar daqueles da base da sociedade, não na eficiência dos que estão no topo”.
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Ainda não li o suficiente para saber o que eu acho dele mas, por enquanto, gostei.
Escrito por Soninha às 21h03
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