Blog da Soninha
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Replay 1

Escrevi os textos abaixo há quase dois anos, aqui mesmo no blog (nossa, o blog já tem dois anos?!). Reproduzo exatamente como saíram, inclusive com o título original, resistindo bravamente à tentação de mexer aqui e ali. O tema, a exemplo do caos no trânsito de São Paulo, é antigo mas está agora nas manchetes: o conflito entre China e Tibete.

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25/04/2006 23:58

China 3

Estará no Brasil, nos próximos dias, S.S. o Dalai Lama, Prêmio Nobel da Paz em 89, chefe do governo tibetano no exílio. Em 1949, seu país foi invadido pelos chineses, que alegavam estar apenas recuperando uma parte do território que lhes pertencia. Seria mais ou menos como o Brasil querer tomar o Uruguai "de volta". Praticaram um verdadeiro genocídio – mais de 1 milhão e duzentos mil tibetanos foram mortos (1/6 da população), cerca de > 80.000 vivem como refugiados em outros países, muitos foram presos, torturados ou seqüestrados; riquezas foram pilhadas e mais de seis mil monastérios foram destruídos -- e instalaram uma colônia nos moldes das mais tirânicas possessões européias dos séculos XVI e XVII. Seus recursos naturais são extraídos até a exaustão; os tibetanos são proibidos de manter suas práticas religiosos (ao ponto de correrem o risco de detenção se portarem uma foto do Dalai Lama) e até mesmo de usar seu idioma; populações chinesas são transferidas para o território tibetano, para ocupá-lo e impor sua cultura. Algumas notícias sobre a região parecem tiradas do roteiro do seriado 24 horas, como esta informação publicada no Jiefangjun Bao (publicação do Exército Popular da China) no dia 16 de Setembro de 1988: "[A China] conduziu manobras de defesa química na zona de alta altitude para testar equipamento recém-desenvolvido". De acordo com um relatório de 3 de julho de 82 da TASS, agência de notícias da Rússia, "a China tem conduzido testes nucleares em várias áreas do Tibet para determinar os níveis de radiação entre as pessoas que moram naquelas regiões". (Fonte: http://www.tibet.com/WhitePaper/exesum.html).

 

Os tibetanos já cansaram de pedir independência, que obviamente está completamente fora de cogitação. Pedem apenas autonomia, o direito à auto-determinação (ainda que a China continue considerando que são um pedaço de seu território). A descrição das tentativas de acordo do Dalai Lama com o governo chinês são de enfurecer qualquer um que não seja um Dalai Lama. Ninguém precisa acreditar nesses relatos unilaterais, mas eu acompanhei de perto um fato que prova a intransigência, a covardia, a irredutibilidade do governo chinês. >

 

Em 2002, meu marido esteve no Nepal com nosso mestre budista, um tibetano que fugiu de seu país depois da ocupação chinesa para não ser executado como milhares de outros monges e Lamas (mestres) foram, e que há alguns anos vivia no Brasil. Katmandu e os arredores – que agora vive um período de horror, como estava na cara que viveria com o rei que tem – abrigam um grande número de refugiados tibetanos; um grupo de budistas do Brasil e dos Estados Unidos, principalmente, fazia uma peregrinação por monastérios da região. No meio da viagem, surgiu a idéia de "esticarem" até o Tibet para aproveitar que estavam tão próximos... Foi uma correria atrás das providências para a viagem, mas deu tudo certo. Exceto por um "detalhe": todos conseguiram seus vistos de entrada, menos o mestre tibetano. Com sessenta e tantos anos e a saúde debilitada, ele queria rever sua terra, os parentes que ficaram lá, seus antigos companheiros e alunos. Foi proibido! Era considerado o que, uma ameaça? Resultado: o grupo desistiu da viagem, porque ela já não fazia sentido.

 

Alguns anos atrás, o mundo se comoveu e se manifestou em relação à dominação do Timor Leste pela Indonésia; descendentes de portugueses eram proibidos de praticar a religião católica e de falar português e centenas de timorenses eram perseguidos e mortos. Mas o Tibet não causa a mesma comoção... Quem é que tem coragem de mexer com a China? Ao contrário, os países que são suuuper defensores dos direitos humanos e da liberdade, como os Estados Unidos, acham que deixa pra lá, não vale a pena interferir em assuntos internos de outros países, né? E o Brasil também considera a China um parceiro estratégico, promissor, preferencial. (Sem falar que o atual presidente da Câmara já chegou a defender e elogiar os "benefícios" que o comunismo levou para os tibetanos, que não têm nada que reclamar dos métodos de "conversão", oras).

[continua abaixo]

Escrito por Soninha às 23h12

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Replay 2

25/04/2006 23:55

China 4

Durante a CPI do trabalho análogo à escravidão em São Paulo, várias vezes se comentou que o aviltamento da mão-de-obra na indústria de confecção foi a "saída" encontrada para conseguir fazer frente à concorrência com os produtos chineses. Se não fosse pelos bolivianos que aceitam receber $0,30 por peça costurada, trabalhar 14 horas por dia em condições absolutamente inadequadas, etc., nosso mercado estaria perdido. E quando, na conclusão dos trabalhos, fazemos algumas propostas para erradicar esse tipo de exploração, surge de novo a preocupação: "Mas com o encarecimento inevitável da produção, como vamos enfrentar os chineses?".

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Eu já fiz parte da campanha "não compre o made in China", justamente para apoiar a causa da liberação do Tibet. Até parece que a gente consegue... Você encomenda um acessório para o I-Pod, da Apple (super made-in-USA...), e ele vem made in China... É, meus caros, às vezes acho que estamos perdidos. Não é que os chineses um dia vão "rule the world" – "já é", como diriam na gíria das periferias urbanas.

 

Para encerrar, uma historinha que tem bastante a ver com o fato de eu ser budista. Quando ainda não era, houve um festival de bandas nos Estados Unidos para divulgar e arrecadar recursos para o movimento Free Tibet. Os Beastie Boys eram os principais organizadores, já que o MCA (um dos integrantes) é budista. A MTV Brasil ia exibir os shows e decidiu entrevistar aquele meu mestre tibetano (Chagdud Tulku Rinpoche). "E aí, que tal esse apoio do showbiz, como é essa conexão com o mundo pop?". Ele respondeu que ficava muito feliz de saber que tinha gente preocupada com seu povo, que tinha sofrido tanto e ainda estava sob o pesado jugo chinês, e com sua história, sua cultura, suas tradições ameaçadas de extinção. "Mas atenção, é preciso ter muito cuidado: é importante apoiar o Tibet, mas sem com isso desenvolver um ódio aos chineses".

 

Depois de uma demonstração de tão gigantesca coerência com os princípios propagados da compaixão, da não violência, do não olho-por-olho, mesmo estando ele na posição de vítima de agressão, fiquei muito impressionada e decidi entender um pouco melhor esse negócio de budismo. Há oito anos sou uma reles aluna, uma praticante meio desorganizada mas esforçada, e o que já avancei no trato de meus próprios venenos desde que comecei a praticar os famosos "métodos milenares" é quase um milagre. Como não disse Neil Armstrong, um passo gigantesco pra mim, um cisco para a humanidade. Enfim, não odeiem os chineses. Nem os estadunidenses, ou cometeremos o mesmo erro que (quase?) nos faz odiá-los. >


Link para quem quiser ler os posts relacionados a esse, ou os comentários postados na ocasião: http://blogdasoninha.folha.blog.uol.com.br/arch2006-04-23_2006-04-29.html#2006_04-26_00_58_22-10366234-0

 

Escrito por Soninha às 23h03

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Apelo

Recebi agora há pouco um email com o texto abaixo - que, por motivo óbvio (apoio à causa), passo adiante. (Ele veio em inglês, e talvez minha tradução apressada tenha alguns problemas, mas garanto que é fiel ao espírito do movimento).
 

Acabo de assinar uma petição urgente clamando ao governo chinês por respeito aos direitos humanos no Tibete e para que trave um diálogo verdadeiro com o Dalai Lama. Isto é realmente importante, e você talvez queira tomar uma atitude:


http://www.avaaz.org/en/tibet_end_the_violence/98.php/?CLICK_TF_TRACK

Depois de aproximadamente 50 anos de domínio chinês, os tibetanos estão emitindo um grito global por mudança. Mas a violência está se espalhando pelo Tibete e regiões vizinhas, e o regime chinês está neste momento diante da escolha entre aumentar a brutalidade ou o diálogo, que poderia determinar o futuro do Tibete e da China.

Nós podemos influenciar essa decisão histórica. A China se importa com sua reputação. Sua economia é totalmente dependente das exportações "Made in China" que todos compramos, e está ansiosa para fazer das Olimpíadas de Pequim neste verão uma celebração de uma nova China que seja um respeitado poder mundial.

O Presindente Hu precisa ouvir que a marca "China" e as Olimpíadas podem ter sucesso somente se ele fizer a escolha correta. Mas precisaremos de uma avalanche global de poder popular para atrair sua atenção. Clique abaixo para se juntar a mim e assinar uma petição para o Presidente Hu clamando por contenção no Tibete e diálogo com o Dalai Lama - e espalhe para absolutamente todo mundo que você puder imediatamente. A petição é organizada por Avaaz, e eles almejam atingir um milhão de assinaturas para entregar diretamente para oficiais chineses.

Escrito por Soninha às 21h36

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Trailer

Continuo em dívida, continuo sem tempo. Vou tentar escrever ainda hoje sobre o clássico em Ribeirão (deve ser engraçado ler isso sem saber que é de futebol que eu estou falando... O que seria, para alguém desavisado ou distraído, um “clássico em Ribeirão”?) e amanhã cedo sobre algum dos temas pendentes. Não vejo a hora de falar sobre a visita ao Talavera Bruce, o presídio feminino no Rio de Janeiro. Mas, enquanto não escrevo, um programa de TV logo mais vai adiantar o assunto: o GNT vai exibir, às 9 da noite, um documentário sobre o concurso de Miss no TB (como se referem a ele internamente). Conheci a Miss quando estive lá; estou louca pra ver os bastidores. (O pior é que não sei se vou conseguir, porque estou em um lugar sem TV a cabo talvez não dê tempo de chegar em casa! Espero que tenha reprise).

Escrito por Soninha às 19h24

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PERFIL

Soninha Sonia Francine Gaspar Marmo, a Soninha, 40, é vereadora de São Paulo pelo PPS e também colunista da Folha de S.Paulo.

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