Blog da Soninha
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Monstruosidade - I

Aos que chegaram a ler o comentário postado comemorando a morte de um tucano, peço desculpas. Ele nunca deveria ter sido publicado.

Quando os comentários se acumulam demais, aprovo todos para que sejam logo tornados públicos, mesmo que não tenha tempo de respondê-los. (Às vezes o tempo passa e eu acabo não respondendo nenhum). Mesmo os mais grosseiros, do tipo “relaxe e goze” e “relaxe e morra”, como há vários aqui. Por norma, só não publico obscenidades stricto sensu. O resto, um retrato de como as pessoas pensam, deixo passar. Mas às vezes corro os olhos tão rapidamente antes de aprová-los que acabo aprovando, sem perceber, um comentário lamentável, monstruoso, inadmissível, como o que citei acima. Um pavoroso sinal de como temos lidado com a política. Já o tirei do ar.

Há quem me acuse de “censura”, especialmente quando, por razões práticas (distância do computador), demoro a aprovar um comentário. Com um mínimo de atenção, quem acusa veria que não “fujo das críticas”, como dizem também. Elas estão aí, às dezenas. Há quem reclame justamente do fato de eu, como editora deste blog, não vetar os comentários mais pesados, violentos, ofensivos, que causam repulsa nas pessoas.

É importante saber que tem gente que, em um debate, escolher ofender, desqualificar, de um lado e de outro, a meu favor ou contra mim. Também não gosto de baixarias a meu favor – sinceramente, não acrescentam nada. Mas esse é um retrato do mundo, sem a ilusão de que somos capazes de fazer uma discussão sem apelar. Pena que seja assim, mas não quero escondê-lo, filtrando conforme o tom.

 

***

 

Aproveitando a ocasião, respondo a vários comentários de uma vez: quando escrevi, minutos depois de saber do acidente do Airbus, que a única coisa que se podia fazer naquela hora era rezar pela redução do sofrimento, é óbvio que isso não tem nada, remotamente nada a ver com conformismo, blindagem do governo, tentativa de abafar qualquer coisa ou inclinação na direção da impunidade. E é incrível eu ter de dizer isso.

Seria de uma presunção sobre-humana pensar que eu, vereadora, (ou eu, blogueira), teria, às 8 da noite, arrasada diante da TV, poder para ajudar a resolver os problemas do caos aéreo e aeroportuário. Que, por meio de uma exortação no blog, seria capaz de mudar qualquer coisa – quem sabe, com o meu apelo, as investigações aconteçam mais rapidamente, a imprensa seja equilibrada e honesta, a Justiça seja feita sem máculas... Sem um apelo no post, é como se eu não estivesse fazendo nada a respeito, muito pelo contrário: talvez eu queira, na visão de alguns, desviar o foco, atrapalhar as investigações, isentar os políticos de responsabilidade. Absurdo...

É como se alguém que escrevesse, chocado, sobre a bomba de Hiroshima, ou sobre o atentado ao WTC, focando no sofrimento pessoal, sem questionar imediata e explicitamente toda a política por trás daquela decisão, estivesse sendo “conivente” com ela, digamos. E como se, ao se horrorizar com sofrimento, já não estivesse fazendo um depoimento contra o próprio fato.

Escrito por Soninha às 13h55

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Monstruosidade - II

(cont. do post acima)

 

Talvez por culpa dos próprios blogueiros, as pessoas estejam dando aos blogs uma relevância descomunal. Atribuindo uma sobre-importância a qualquer coisa publicada em um blog. Acreditando nos blogs como se fossem retratos do mundo que não permitem contestação: “se deu no blog, é verdade”. Um raciocínio tão temerário quanto as variantes “se saiu no jornal/ mostrou na TV/ falou no rádio”.

Há blogs de vários tipos, mas eles são, basicamente, um espaço para se escrever em primeira pessoa, manifestando uma visão que não se pretende indiferente, totalmente objetiva, distante. Um lugar em que se dá opinião; em que se assume uma posição em relação aos fatos.  Mas isso também é ignorado às vezes; as pessoas presumem objetividade absoluta (a não ser no meu caso, porque sou filiada a um partido). Um blogueiro pode ser equilibrado, honesto, justo, mas todo mundo tem opiniões, julgamentos, preferências. Que, quanto mais claros ficarem, melhor.

O blog pode mesmo tratar de coisas muito importantes, como pode comentar fatos cotidianos, coisas banais que fazem parte da vida tanto quanto os grandes fatos e decisões. Se eu falo de futebol ou de flores, não estou, acredito, “desperdiçando o precioso espaço na mídia” – ou será que precisamos extinguir tudo que é publicado exceto os cadernos de política e polícia? Grandes cronistas que admiro, na narração poética de cenas corriqueiras, foram importantes para mim, tanto quanto autores de grandes estudos, ensaios, artigos e reportagens sobre coisas “sérias”. Entre aspas, porque a vida cotidiana também é séria, o relacionamento entre as pessoas é sério, o lazer é caso sério, a cultura, a arte, o esporte, as sensações e sentimentos também são.

 

***

 

Ao fazerem suas críticas no blog, às vezes as pessoas lêem o que não escrevi – como uma “defesa do Lula” no post sobre as vaias (que defesa?) – e não lêem o que escrevi. Passam por cima, ignoram.

No post sobre a tragédia de terça-feira, escrevi: “impossível não pensar em erro. Em erro absurdo, inadmissível, criminoso”. Falei em erro, falei em “crime”. A se julgar por alguns comentários, é como se não tivesse falado nada a não ser em “rezar”.

Não se pode, ainda, dizer qual foi e de quem; se recente ou acumulado no tempo, se de uma pessoa, um grupo pequeno ou de muita gente. Se houve uma seqüência e coincidência absurda de problemas (instrução errada, zona de sombra, transponder desligado, comunicação deficiente) como no acidente da GOL. Mas quando um entrevistado, do “governo” ou da “oposição”, com muita cautela e responsabilidade, se recusa a dar um chute, acaba sendo acusado de “se esquivar”... O que queremos, afinal – saber a verdade ou escolher imediatamente um culpado para linchar e nos sentirmos “justiçados”?

Esse desastre lembrou outro momento de sofrimento, de proporções bem diferentes, pelo qual passamos este ano: o desabamento na obra do metrô. Mas depois eu volto a isso.

Escrito por Soninha às 13h54

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Perplexidade e impotência

Primeiro, alguém ligou para a Betty Lago, na saída da gravação do Saia Justa, para avisar que ela teria de pousar no Galeão, porque “pegou fogo no Santos Dumont”. Parecia trote; ficamos esperando a conclusão da piada. Zapeamos pelos canais abertos da TV mais próxima – os únicos disponíveis -- e não vimos nada a respeito, mas o UOL confirmou: “Incêndio em loja interrompe operações no Santos Dumont”. Houve certo alívio: incêndio em loja não configura exatamente uma catástrofe; parece mais controlável, menos aterrorizante.  A fumaça preta chegava à pista e impedia pousos e decolagens.

 

Minutos depois a mesma TV, mal sintonizada, mostrava labaredas voluptuosas contra o céu escuro, encobrindo parcialmente o símbolo da TAM. “Nossa, como piorou”. E fomos embora da produtora pensando que era no Rio.

 

Já no carro a caminho de casa, a CBN informa: o incêndio era em São Paulo, e em conseqüência de um acidente horripilante. A atriz Ligia Cortez, que se dirigia para Congonhas, entra no ar por telefone, perplexa: “No começo, quando falaram em fogo, não acreditei: não era no Santos Dumont?”.

 

Que acontecimento absurdo. Que pesadelo.

 

Chego em casa, e o telefone toca três vezes seguidas. Todo mundo incrédulo, chocado, perguntando “você está vendo?”, querendo ajuda para aceitar a notícia. Um pouso normal já é um momento tenso, desconfortável. A reversão dos motores, o choque com o solo, a inércia pressionando o corpo e a cabeça contra o banco da frente. Não consigo deixar de me imaginar lá dentro; de sentir o pavor das pessoas, a sensação de “é agora”. “Eu vou morrer agora”.

 

O fato de ser um vôo de Porto Alegre, trajeto familiar para mim, torna mais a cena mais plausível, mais realista. Quando e como será a minha hora? Passei hoje de manhã na frente do aeroporto; quando iria imaginar que a qualquer momento um avião podia cruzar a pista na minha frente?

 

Que coisa triste, horrível. Ainda ontem outro avião deslizou... Que susto medonho, mesmo não tendo acontecido nada de mais grave. Com a repetição tão próxima de dois acidentes, impossível não pensar em erro. Em erro absurdo, inadmissível, criminoso. Um erro brutal de avaliação das condições da pista (presumindo, claro, que o problema foi na pista).

 

Como em outras tragédias, dá vontade de fazer alguma coisa. Ir à Indonésia vasculhar e recolher os escombros do tsunami; ir à cratera do metrô ajudar a escavar; tentar apagar o fogo. Procurar as vítimas, socorrer os sobreviventes, consolar os familiares e amigos. Enfrentar a impotência diante do irreversível, do que agora é inevitável, do que foge completamente ao nosso alcance. Nessas horas me ocorre que, não podendo fazer mais nada, o que resta a um ser humano é rezar: formular um pensamento de apoio, de solidariedade, de calma e conforto, com ou sem palavras, mas com a intenção sincera de reduzir o sofrimento do outro nessa hora.

Escrito por Soninha às 19h33

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Da liberdade de edição

Do blog do Noblat:

Quebrou a cara quem reclama do ufanismo de Galvão Bueno e foi assistir a abertura do PAN no canal a cabo ESPN Brasil.
Na hora de uma das seis vaias que saudaram Lula, a comentarista Soninha, vereadora do PT em São Paulo, disparou: 

- É uma vaia de umas cinco mil pessoas.

Detalhe: Soninha estava dentro do estúdio da emissora em São Paulo.

O âncora do programa, José Trajano, que transmitia direto do Maracanã, corrigiu:

- Não, Soninha, não são cinco mil. É o estádio inteiro.

Pano rápido.

 

Tentei responder lá, mas não consigo. Entra uma página pedindo para “confirmar o cadastro do meu email”, e necas dele ser confirmado. Então vai aqui mesmo.


O texto é bem editado, engraçadinho, coisa e tal. Mas toma umas liberdades -- de quem não viu (ouviu contar) ou viu mas preferiu dar uma "melhorada". É preciso fazer três correções:

 

1)       Não foi "na hora de uma das seis vaias". Foi no programa que começou assim que a cerimônia terminou.
2)   O Trajano não transmitia direto do Maracanã. Ele também viu pela TV -- estava dentro do estúdio da ESPN no Rio.
3)       Eu não disse “É uma vaia de umas cinco mil pessoas”. Eu estava dizendo que, mesmo que cinco mil vaiem em um grupo de 50 mil, isso já produz um estrago considerável. Isto é, nem faz tanta diferença se são cinco, dez ou cinqüenta mil: se houver dois vaiando no meio de vinte, já é um constrangimento monstro. O Trajano, irritado, me interrompeu, como se eu estivesse duvidando que tinha sido “o estádio inteiro”.

 

Tinha gente vaiando como tinha gente aplaudindo. Muito mais gente vaiando? E aí, muda muito? Tem placar?
Uns vaiaram por desaprovação ao governo, outros por rejeição ao próprio Lula e ao partido do Lula, pela corrupção no Congresso, por provocação, por um certo orgulho bairrista (interpretação do Trajano), por irreverência e galhofa... Como eu disse, o constrangimento é o mesmo. Enorme. Que só foi piorado pelo fato de o Lula não ter feito o pronunciamento protocolar. Parecia que ele estava prestes a falar – “Declaro abertos...” – quando o Nuzman resolveu chamar a responsabilidade para si. Vai saber se ele decidiu não falar mesmo, se ficou esperando a deixa (a luz, o microfone), se titubeou um instante e o Nuzman se precipitou. A vaia já tinha acontecido, e era melhor ele ter falado. Sob vaias, se fosse o caso. Cumprindo com o dever do cargo, suportando o barulho contrário.

 

Mas o que eu acho engraçado é alguns exaltarem a vaia ao Lula como prova de que o povo (ou “o carioca”) é super crítico, está cansado dos desmandos e da corrupção, não se deixa enganar facilmente, etc. e tal. Então os aplausos ao César Maia são uma demonstração “crítica” de apreço genuíno pela sua administração? De aprovação entusiasmada, imbuída da certeza de que o partido dele, o DEM, não tem nada a ver com os problemas que assolam o país?

 

Então tá.

***

Também do Noblat: “Pintou esta tarde no calçadão de Copacabana o primeiro carioca de sandálias, bermuda e camiseta branca onde ele mesmo pintou nas costas: "Pan - Rio - 2007". E na frente: "Eu vaiei Lula".”. Isso realmente é engraçado (sem ironia).

Escrito por Soninha às 22h25

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Sobre a Copa América

* Viu como é possível jogar bem e ganhar? :o)

 

* Dunga, no aeroporto: “Quem tem que explicar [agora] é quem criticou”. Bom, eu critiquei e expliquei por que. Enquanto a seleção estava uma porcaria (vai me dizer que não começou mal?), o técnico dizia que estava ótima. Depois disse que “melhorou naturalmente durante a competição”. Sim, melhorou – afinal de contas, ESTAVA ruim no começo. Custa admitir? Parece que estávamos todos loucos, enxergando apresentações pífias quando o time estava muito bem. O pessimismo talvez fosse exagerado, mas o otimismo, àquela altura, também era.

 

* A Argentina não perdeu porque tem muitos craques e joga um futebol vistoso etc. Perdeu porque não jogou porcaria nenhuma na final. (Antes que alguém diga “viu como futebol bonito não vale nada?”). Agora vai parecer oportunismo dizer isso, mas o primeiro tempo contra o México também tinha sido fraquinho, fraquinho. Só que de certo ponto em diante eles foram tão inspirados, envolventes e eficazes que a impressão, mais uma vez, foi muito boa.

 

* Nós somos a França da Argentina...

 

* Julio Baptista é um jogador muito bom. Muito útil. Forte, decidido, eficaz. Não é um craque, mas dá suas cacetadas, como diria Didi Mocó. Acho que eu sempre gostei mais dele do que a maioria... Mas também resisto um pouco à idéia de tê-lo como titular do meio-campo. Não creio que seja indicado para todo tipo de jogo. Com um adversário mais fechado, em jogo truncado, não sei se ele é o cara indicado para achar os caminhos.   

 

* Galvão Bueno: “Como é gostoso fazer gol na Argentina. Se for contra, então, é melhor ainda gostoso”.

Argh. Mais gostoso?? Para um torcedor no boteco, ou nos comerciais de cerveja que exaltam a cafajestagem, pode ser. Mas lê isso é coisa para ser dita por um narrador esportivo? Ainda se fosse um gozador emérito, um Silvio Luiz, vá lá. Mas alguém que volta e meia dá lição de moral em todo mundo? Gol contra é infortúnio do adversário. Mais gostoso é gol a favor, mesmo.  Bonito como o do Julio. E o do Daniel Alves. Ou aquele do Elano. O do Adriano...

 

* Galvão realmente acrescenta emoções à transmissão. Acrescenta, por sua conta, aquelas que adivinha nos jogadores. Eu queria ter contado quantas vezes ele disse que alguém estava “desesperado”. Se o Ayala sobe ao ataque quando Argentina tem um escanteio, por exemplo, está “desesperado”. Como se fosse extraordinário o zagueiro aparecer na área nessa situação.

 

* Curiosidade: a ficha técnica da final de 2004.

BRASIL
Júlio César; Maicon, Juan, Luisão (Cris) e Gustavo Nery; Kleberson (Diego), Renato, Edu e Alex (Felipe); Luis Fabiano e Adriano.

Técnico: Carlos Alberto Parreira.

ARGENTINA
Abbondanzieri; Coloccini, Ayala e Heinze; Zanetti, Mascherano, Lucho González, (D'Alessandro), Rosales (Delgado) e Sorín; Tevez e Kily González.

Técnico: Marcelo Bielsa.

Local: estádio Nacional, em Lima (PER).

Juiz: Carlos Amarilla (PAR).

Gols: Kily Gonzalez, aos 21min, e Luisão, aos 46min do primeiro tempo; Delgado, aos 42min, e Adriano, aos 48min do segundo tempo.

(Quanta diferença, não? Mas o juiz era o mesmo!)

Escrito por Soninha às 21h03

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PERFIL

Soninha Sonia Francine Gaspar Marmo, a Soninha, 40, é vereadora de São Paulo pelo PPS e também colunista da Folha de S.Paulo.

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